Capacete & Galochas, Lda.

Quando amanhã se sentarem diante de Marcelo, pode ser que algum dos conselheiros de Estado se lembre de que o pão cai quase sempre com a manteiga para baixo, que é como quem diz: o que pode correr mal vai mesmo correr mal - e, no nosso caso, no pior momento possível. Seja qual for o resultado das eleições, espera-nos um aumento geral dos preços e, durante meses, a escassez ou a demora de alguns produtos de consumo corrente.

Antes de se pronunciarem sobre a crise política caseira, os conselheiros hão de ouvir a senhora Lagarde, do Banco Central Europeu, advertir que a míngua de produtos químicos, madeira, plástico, metais e chips vai subir preços, alimentar a inflação e, logo, as taxas de juro que pagamos pela dívida. Há uma semana, já o Banco da França prevenira que os problemas de abastecimento são generalizados na construção, na indústria e, especialmente, na produção automóvel, confirmando o registo da associação europeia de componentes segundo a qual há atrasos na produção de mais de 500 mil veículos. Quem imaginaria que nos países mais ricos do mundo, no período mais consumista do ano, fosse difícil comprar alguns produtos (materiais de construção, tecnologia, químicos, automóveis, matérias-primas... e até brinquedos)?

Coroámos a globalização, mas algo vai mal nesse reino quando, podendo trocar de carro, temos de esperar nove meses para receber o novo; quando grandes navios de contentores fazem fila por mais de uma semana, em enormes engarrafamentos nos principais portos do mundo ocidental. É a globalização que vacila quando até na indústria de brinquedos há empresas que não sabem se os seus produtos chegarão a tempo para a lucrativa campanha de Natal; e quando as fábricas de automóveis param porque não têm semicondutores, ou as obras atrasam por falta de madeira, alumínio ou aço. A globalização tem êxito quando baseia a sua capacidade de atender às necessidades dos consumidores a um preço razoável e em curto período de tempo. Ou seja, o mecanismo funciona quando há estabilidade nos preços da energia (e não há) e a produção viaja sem problemas, principalmente de países de mão-de-obra barata para países de rendimento médio e alto. Acontece que o ciclo mudou e a pandemia, mais do que areia, foi o pedregulho na engrenagem que estrangulou o comércio mundial, sobretudo quando foi preciso encerrar fronteiras e fábricas. No Extremo Oriente trabalha-se aos soluços desde há dois anos, e a retenção de matérias-primas para uso próprio de países como a China, aliada à alta de preços, também não ajuda.

O gargalo que estrangula as cadeias de distribuição tem vários efeitos, ao mesmo tempo: inflaciona os preços das principais matérias-primas (industriais e agrícolas); atrasa a entrega dos produtos aos consumidores, em virtude de congestionamento do transporte que, por sua vez, o encarece; agrava os custos com pessoal por falta de mão de obra especializada (camionistas, por exemplo) e, naturalmente, aumenta as reivindicações sindicais não só em salários, mas também em melhores condições de trabalho. Depois de décadas de deslocalizações industriais, para fazer mais por menos graças à mais barata mão-de-obra asiática, os europeus não esquecem a chegada caótica de aviões chineses para nos abastecer de máscaras e ventiladores. Daí que a União Europeia apele à reindustrialização, para ser mais autossuficiente, pelo menos em áreas essenciais como a saúde. A palavra soberania volta a estar na moda. Capacete e galochas, eis a indumentária que a estação recomenda.

Jornalista

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