Cansaço e incertezas na reta final para as férias

O país tradicionalmente abranda em agosto. Estamos por isso na mais difícil semana do ano, quando tudo parece demorar e qualquer concretização tem um esforço acrescido. As pessoas e as organizações onde se integram estão já em contagem final, na expectativa de que o sistema não traga mais trabalho e pressão e que tudo possa esperar para setembro.

Talvez devido a esse cansaço, a última semana, marcada pelo falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho, uma das figuras mais controversas da democracia portuguesa, trouxe exacerbações e discursos possivelmente marcados pela época. Não há mal nenhum em opinar, numa base crítica, informada e esclarecida e não num circuito de raiva pintado pelas cores da política. Por isso mesmo não pretendo hoje opinar sobre Otelo, mas não posso deixar de me indignar sobre um conjunto de análises baseadas no desconhecimento, tendo apenas e só como referência o quadrante político onde este se inseria.

Todo este clima pré-agosto está ainda mais exacerbado pelo quadro de pandemia que continuamos a viver. Atravessamos uma quarta vaga, no momento em que a partida para férias é imprescindível e a incerteza sanitária é fator agravante dos comportamentos. O controlo da pandemia está mais atrasado do que a maioria desejou em janeiro, quando as vacinas pareciam garantir um verão dentro da "normalidade". O cansaço não ajuda a suportar este final de ano, já de si sempre difícil, e a pandemia é mais um motivo de divergência política, com as opiniões coladas às opções de cada um.

Não fora já um julho complicado, a antevisão de um setembro eleitoral está também a mexer com a interpretação de acontecimentos e factos e a fomentar o aparecimento de opiniões muito condicionadas pelo resultado que cada um espera das eleições que se avizinham. Um quadro eleitoral que é sempre visto como uma avaliação de quem governa localmente, mas também de quem governa o país e que é indicador das opções para a segunda parte da legislatura.

Temos por isso um conjunto de acontecimentos que pedem férias das "verdadeiras", das que permitem cortar com o mundo e recarregar forças para mais um ano de trabalho. Talvez valha a pena pensarmos que há um momento de pausa obrigatório, como a ginasta Simone Biles provou ao desistir do sonho dos Jogos Olímpicos em nome da sua saúde mental. Esperamos voltar todos em setembro mais saudáveis e mais resilientes...

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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