Camioneta-fantasma...

Em 1945, quando muitos portugueses alimentavam a esperança de que o fim da guerra permitisse uma abertura política no sentido democrático, o padre Joaquim Alves Correia (1886-1951), missionário do Espírito Santo, que ganhara a alcunha de Padre Larguezas, em virtude do sucesso obtido com o seu livro A Largueza do Reino de Deus (1931), acreditava sinceramente numa sociedade aberta, baseada no respeito mútuo e no pluralismo. E escreveu no dia 23 de outubro de 1945 nas páginas do República um texto que deu brado, intitulado, significativamente, "O Mal e a Caramunha", sobre a chamada "Noite Sangrenta", cujo centenário passou há dias. Nesse 19 de outubro de 1921, a que Raul Brandão chamou de "noite infame", foram assassinados barbaramente por um grupo de amotinados, sem razões claras nem mandantes conhecidos, o primeiro-ministro António Granjo, o fundador da República almirante Machado Santos e o oficial que liderara a revolta da Marinha em 1910, Carlos da Maia, primo por via materna de Antero de Quental. Até hoje essa viagem da camioneta-fantasma por Lisboa a semear o terror está envolta em mistério (ajuste de contas com o sidonismo?), mas foi dos momentos que mais contribuíram para a queda da República.

Nesse texto, o padre Joaquim Alves Correia denunciava um ambiente de mal-estar, de desconfiança e de ressentimento, em que "era muito cómodo, mas muito pouco corajoso, atirar à cara deste povo irrequieto com a responsabilidade da desordem pública, quando o pobre povo nem responder podia", e acusava o governo de Salazar por não ser justo nem ordeiro, nem moralmente elegante, ao continuar a atirar com o horror daquele tenebroso dia aos amigos das vítimas dele. E acrescentava: "Não. Não é sincero nem decente." Amigo de António Sérgio e de vários democratas, o sacerdote católico assinou o pedido de eleições livres, com dezenas de intelectuais e figuras públicas e por isso sofreria, como muitos outros, perseguição que culminaria na obrigação de abandonar o país a 17 de fevereiro de 1946, perante uma estranha complacência geral. A "Noite Sangrenta" foi dos mais hediondos episódios da nossa história política, cujas razões foram indagadas por Berta Maia, viúva de Carlos da Maia. Esta partilhou com o padre Alves Correia o que resultara do estranho testemunho do protagonista do massacre, Abel Olímpio, o "Dente de Ouro". Destas conversas resultaria haver supostos inocentes a lançar achas para a fogueira criminosa. A referência ao mal e à caramunha deveu-se ao facto de haver responsabilidades na violência de quem se dizia vítima da intolerância. Só a verdade permitiria um verdadeiro espírito de respeito mútuo e de defesa dos direitos e liberdades e da dignidade humana em vez do aceno de falsos fantasmas, para desacreditar os valores da liberdade e da democracia.

Ostracizado nos Estados Unidos, como mais tarde o padre Abel Varzim em Cristelo, Alves Correia foi capelão dos emigrantes portugueses em San Diego, Califórnia, professor na Duquesne University de Pittsburgh, passando ainda pelo México e o Haiti e morrendo em Pittsburgh. Luísa Dacosta, ao recordar esse tempo em que acompanhou à distância o exílio e a doença de Alves Correia, deixou-nos um testemunho tocante: "O meu inconformismo foi cimentado pela tua palavra. Foste tu quem me ensinou a distinguir entre a tolerância para com os outros e a intransigência dos princípios. O meu empenhamento no humano devo-to a ti. A fidelidade à consciência, contra tudo e contra todos, foste tu que me ensinaste. E só tu podias fazê-lo, porque nunca quebraste a minha impetuosidade e desde sempre deste de beber à sede da minha ternura" (Antologia de Joaquim Alves Correia, Cristianismo e Revolução, seleção de Anselmo Borges, Sá da Costa, 1977).

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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