Bonaparte, 200 anos depois

Cumprem-se hoje dois séculos da morte de Napoleão Bonaparte, corso, francês e europeu, falecido na remota ilha de Santa Helena em maio de 1821, calvo, obeso e doente. Imperador originalmente jacobino, tirano e homem de Estado, génio militar derrotado por distração, libertador e invasor, romântico e mulherengo, anónimo feito imortal, saiu deste mundo com 51 anos e um cancro, que autodiagnosticara com uma certeza que a autópsia confirmaria. Os seus últimos dias, no derradeiro exílio a que Inglaterra o sujeitou, foram tristes, ébrios e solitários, com avolumadas encomendas de vinho, longos banhos de imersão e um clima atlântico a que realmente nunca se acomodou. "Este calhau miserável" era a descrição que escarnecia da sua morada final. Os visitantes, quando os havia, pediam-lhe que relatasse batalhas e feitos do seu tempo, aos quais correspondia, abrindo mapas em cima da mesa de bilhar, segurando-os ao tapete com o peso das bolas e tratando a memória das suas vitórias "como um amante se lembra das suas paixões".

Na travessia, encantaria os tripulantes britânicos, jogando partidas de xadrez e cartas e despejando quantias astronómicas de moedas ao passar o equador, em tributo a Neptuno. Contra a sua vontade, era tratado por "general" ("mais valia chamarem-me arcebispo", brincava) e as armas não o saudavam quando ascendia a bordo.

Ao chegar à ilha com a futura residência por remodelar, no ponto mais elevado de Santa Helena, Bonaparte foi alojado na casa do intendente da Companhia das Índias Orientais e ficou amigo da segunda filha da família, uma jovem de 14 anos chamada Betsy ou, para ele, em jeito corso, bambina. O francês ensinou-lhe cantigas tradicionais da sua terra natal e desafiou-a a decorar as capitais europeias. No relato que o historiador Andrew Roberts encontrou da própria, Betsy narra a ocasião em que Bonaparte lhe perguntou a capital da Rússia. "São Petersburgo agora, Moscovo antes."
E quem a queimou?, terá inquirido ele, com um sorriso nos lábios, como se não tivesse perdido tudo desde então. "Sabes muito bem quem foi!", como se a sua falhada invasão à terra do czar não tivesse custado cem mil vidas sob a sua bandeira.

Na escala de cinzentos da história, é impossível decidir a tonalidade que melhor retrata Napoleão Bonaparte. Se o soldado, o legislador, o militar ou o político. Se o seu legado é fardo, herança ou mito. A sua formação no Exército ofereceu-lhe uma educação clássica, que tornaria César e Alexandre as suas referências. De 60 batalhas, perdeu somente sete. Foi bafejado pela sorte (ou pela "fortuna", como lhe chamava) e atormentado por maleitas. Teve sempre pressa. General com 24 anos, primeiro cônsul com 30, imperador com 35. Nem a vestir (uma farda de tenente no uso diário), nem a dormir, nem a comer (nunca mais de 20 minutos) perdia tempo. O seu brasão não era uma abelha por acaso. Wellington, que o vergou em Waterloo, considerava-o "o maior capitão de todas as eras". Churchill, "o maior homem da ação na Europa" desde Roma.

Apesar de ter abolido a escravatura no seu último ano de poder, foi autor de massacres de prisioneiros e de nativos nas Caraíbas. Fundou o Tribunal de Contas francês, hoje em funções no mesmo local, e os encontros do Conselho Estado, que se reúne ainda à quarta-feira, como por ele decretado. Os seus liceus franceses prosseguem um símbolo da educação pública. O seu Código Civil inspirou e reflete-se na lei europeia de hoje. A sua visão de Europa de moeda única e sem fronteiras não nos é estranha.

Como todos os gigantes, esmagou e elevou com igual força. Esteve no nascimento da Revolução e declarou o seu fim, ao ser coroado. A sua legitimidade não nascia das urnas ou de ascendência, mas de ganhar guerras. À beira da morte, foi abençoado por um padre apesar de ter tido dois Papas como inimigos. O seu funeral teve honras militares, mas realizadas por tropas inimigas. A sua lápide sobreviveu a estes 200 anos, ainda que continue sem qualquer inscrição. Os ingleses recusaram que lá se escrevesse "Napoleão", por lhe oferecer um tom real que não lhe reconheciam, e os franceses que o acompanharam até ao fim não aceitaram "Napoleão Bonaparte", porque, para eles, havia sido muito mais do que isso.

Colunista

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