Bloco Entrincheirado

A convenção do Bloco de Esquerda aconteceu durante o último fim de semana e decorreu sem grande eco mediático, mas teve, apesar de tudo, o seu conteúdo de debate e de reflexão feito dentro e fora do pavilhão em Matosinhos. O dilema entre a prática doutrinária de um partido de protesto - relativamente à sua atuação - e o exercício da responsabilidade - aos olhos de uma opinião pública cada vez mais exigente - fica de resumo sobre os dois dias de discussão política.

Eleitoralmente, e em teoria, com facilidade se assume a paternidade do contributo para a governação e para a estabilidade, mas ninguém quer tão pouco o apadrinhamento da ingovernabilidade ou de uma crise política. A partir daqui, o bloco abriu a discussão em torno do seu posicionamento sobre a votação do próximo Orçamento de Estado. Desde o voto contra na generalidade, no ano passado, referente ao documento atual e em vigor, depois das sucessivas votações favoráveis desde o tempo da geringonça, o Bloco de Esquerda nunca mais parou de cair nas sondagens na sequência do teatro das negociações inconclusivas e da dispensa de culpas entre o partido e o Governo.

Na verdade, todos desejam o cenário de uma crise política, mas ninguém quer esse ónus. O PS aproveitaria para a consolidação de uma maioria absoluta e a oposição tudo faria para crescer o mais possível e provar, cada um à sua maneira, que tem razão. Como a realidade é mais forte do que a ficção, o Bloco antecipou a sua disponibilidade para negociar e elegeu o emprego como tema fundamental para chegar a acordo com o Governo para o próximo Orçamento. O ataque ao PS que marcou a reunião dos bloquistas é meramente para consumo interno.

A crescente oposição interna à liderança de Catarina Martins obrigou a Direção do Partido a opor-se com mais afinco, levantando a voz contra o governo socialista, nos microfones que falam para os seus. A contestação interna do Bloco de Esquerda cresceu, ganhou expressão e representatividade e a maquilhagem da imagem da pluralidade em antítese ao unanimismo serve como argumento, mas não deixa de fazer tremer quem lidera, apesar da vantagem em votos e em lugares dentro de portas.

Eis a encenação de um partido de protesto, a querer parecer um partido de massas. Um verdadeiro Bloco entrincheirado entre a oposição interna, que quer mais distância ao PS, e a opinião pública que não perdoa fugas à responsabilidade e ao contributo para a estabilidade política e governativa. A relação com o PS e o voto do próximo Orçamento de Estado, em função da posição do Bloco, dirão muito sobre o seu futuro. E sobre o futuro do país.

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