Berço, educação e corrupção

Nas últimas semanas (ou nos últimos anos) temos assistido sucessivamente a um conjunto de notícias sobre condenações, audições parlamentares e outros apontamentos relativos a figuras públicas, nomeadamente ligadas à banca e ao desporto, na sequência de dívidas de milhões de que mal se lembram, que não se incomodam de ter contraído nem tão pouco têm como preocupação pagar.
Se a contração de dívidas até pode ser vista como um percalço na vida de um empresário ou de um gestor, já a total e completa ausência de preocupação pelo facto, a não assunção de culpa, o desprezo pelo apuramento da verdade e a ausência de arrependimento são um problema de falta de berço e de educação.

Cabe às famílias dar berço, guiando as crianças para se tornarem adultos sérios, trabalhadores, responsáveis, honestos e preocupados com as suas ações, nomeadamente quando delas dependem terceiros. Cabe às famílias e à escola dar a educação que garanta ao educando a capacidade de distinguir o bem do mal, o que se pode do que não se pode e, claro, o que está certo e errado. É na formação da personalidade e não na sua repressão que reside o combate à corrupção.
O ensino muito tecnológico e pragmático que se vem praticando, com um quase desprezo pelas disciplinas de formação cívica e moral, que apelem ao pensamento crítico e à construção da personalidade, não parece ajudar à formação de personalidades robustas para o exercício do poder e da gestão financeira.

Deveriam os cursos de gestão ter obrigatoriamente, para além da matemática, uma cadeira de filosofia? Deveriam os que pretendem exercer gestão, mesmo sem terem passado por cursos de formação, serem escrutinados por um crivo que ateste a sua capacidade de lidar com o poder, com o dinheiro e com comportamentos éticos e incorruptíveis? Deve a sociedade continuar a criar leis penalizadoras e observatórios da sociedade em vez de educar para a cidadania?

Precisamos criar estratégias de prevenção, que contribuam para credibilizar a sociedade e a moral, garantindo que a criança que, com cinco anos, devolve o lápis que encontrou no chão da sala, será o adulto que terá dificuldade em se apropriar de mais do que aquilo que lhe cabe. Precisamos que a sociedade - que a escola - volte a ensinar comportamento ético e responsabilidade, para podermos ver, dentro de duas gerações, uma diminuição visível da corrupção e não um escalar da atual situação.
Para o conseguir, importa que as famílias eduquem no sentido estrito do termo as gerações vindouras. Precisamos que a escola perceba que tem de mudar a forma e o conteúdo do que ensina e que os responsáveis políticos sejam suficientemente corajosos para redistribuir riqueza, para compensar monetariamente de forma justa o trabalho e para diminuir as situações de vulnerabilidade social e moral que induzem a corrupção.

Relativamente à formação de gestores, o ensino superior deve repensar as estratégias que lhes estão associadas, continuando a formar tecnicamente bem, mas contribuindo também para formar líderes, de boa índole e à prova de corrupção.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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