Bazuca de felicidade. Obrigado covid

Não querendo gastar tempo sobre a capacidade de Sócrates em detetar "mandantes" (alô Ivo Rosa :) ), partilho hoje a imensa alegria que me tomou na última sexta feira ao contemplar uma das aparições mais extraordinárias da minha vida. Estava eu desprevenido a ver o vídeo da apresentação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) quando "aquilo" surge. Como agora se diz... então é assim: o primeiro-ministro fala e, ao fundo, está um gráfico com umas linhas a apontarem para cima, rumo ao céu, deixando antever a tão desejada... prosperidade. Sim, ela, finalmente.

De que trata o gráfico? Dos próximos 10 anos. Nele vemos então que, com a ajuda do PRR, nada disto por que passamos foi tempo perdido. Encontraremos o nosso futuro em 2026. Ou seja, a projeção macroeconómica do Governo mostra que nesse bendito ano do Senhor estaremos como se o "bicho" não tivesse estragado a nossa vida. Em 2026 estaremos com 10% de crescimento de PIB acumulado entre 2019 e 2026. É emocionante. Deus escreve direito por linhas tortas (neste caso bastante retilíneas, e a apontar para cima).

Mas, sabemos todos, as linhas de Deus são infinitas. No vídeo, António Costa desvenda o milagre seguinte. Diz o PM - 1h07m30: "Agora, o que é importante, é que com a execução deste plano, nós temos condições não só de, em 2026, chegarmos ao ponto em que estaríamos se sem covid tivesse havido a evolução natural do nosso crescimento desde 2019... como a partir daí irmos mais além e podermos chegar a 2030 melhor do que teríamos estado se não tivéssemos o PRR".

O vídeo devia ter uma música de fundo, mas não é fácil de escolher entre a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvorak, a mais simples Primavera de Vivaldi ou o Sobe Sobe Balão Sobe de Manuela Bravo. Seja como for, quero o contacto daquele senhor - o que está na origem do gráfico. Vou-me tornar no Jorge Mendes dos economistas e este tipo tem valor. Há muitos países do mundo a precisar de algo assim. Não é também de descurar a hipótese de lhe abrirmos um gabinete de consultas particulares para pessoas em desespero na Almirante Reis.

O tal senhor do gráfico diz que teremos 20% de crescimento numa década (2020-2030).

Quem sou eu para duvidar. Costa já provou que um país à bolina do seu otimismo só não resiste a uma pandemia mundial (e a José Sócrates). Tudo o resto aguenta-se bem.

Querendo ajudar, acrescento, no entanto, este aviso: os portugueses têm alguma dificuldade em gastar o dinheiro europeu. Não é por acaso que o pacote 2104-2020 terá ainda pelo menos um terço da verba por executar. Ideias, há. O problema está quase sempre nos papéis, de todo o tipo (como Sócrates, que foi nosso PM, bem sabe). No entanto, como quase dois terços do PRR (10 mil milhões) são de iniciativa do Governo, autarquias e empresas públicas, pelo menos estes vão ser gastos. É para isso que serve o Estado. Os nossos défices e dívidas são a prova provada da sua eficácia a gastar. Novecentos anos comprovam-no.

Deixo, porém, para futura análise (e inquietação) do Governo, o facto deste gráfico de linhas em v poder ser também de semiótica complexa. Aquelas setas, a descerem e depois a subirem, lembram o símbolo do PSD...? Não foi Costa que disse que saía em 2027? Ou será antes? Há ali uma mensagem encriptada, qual Código da Vinci em pleno Mondego? A iluminura precisa da leitura de astrofísicos da política. Pode ser que Marques Mendes comece hoje a descascar o abacaxi.


Jornalista

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