Barragens = aeroporto. É sempre tarde demais

A indignação é a espuma, eu queria sim o vale, o que existia há 15 anos, o que morreu e agora é uma herança tributária. O vale do Sabor era verde, o vale do Tua uma saudade viva à espera do regresso do comboio na mítica linha, e por aquele Douro reinava um mundo quase intocado, silencioso e maravilhoso, uma parte inalienável do meu país, os rios de fio fino, peixes, aves e pescadores, pontes antigas, árvores de microclima. E também a felicidade. A felicidade dos poucos turistas que contemplavam o que restava de um mundo onde a harmonia entre a geologia e a natureza se exprimiam com aquele poder magnético. A grandeza das gentes com os pés na terra, como se fosse sua.

Energia verde? As barragens eram essencialmente uma colossal operação financeira. A venda valeu 2200 milhões de euros, maquia que a Three Gorges papa sem notar, pós-venda de um ativo alienado. Para o conseguir, em 2007, a EDP garantiu uma concessão sem concorrência e anestesiou a opinião pública com um milhão de euros de outdoors e filmes promocionais por todo o lado, alimentando a fantasia do paraíso-barragem, o barquinho, o luar e o lobo...

Sócrates e Mexia. Na primeira visita às obras da barragem do Sabor, o escarninho do primeiro-ministro, em comentário lateral para o presidente da EDP, ficou para a história: "Só falta o betão...".

Venceram. Tão limpinho limpinho que há quase uma década corre uma investigação ao caso Sócrates-EDP, além da autópsia à forma como Manuel Pinho engendrou a baixa do valor das concessões de uns iniciais dois mil milhões para três vezes menos. (https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-set-2018/a-estranha-lei-das-barragens-da-edp-que-foi-aplicada-antes-de-ser-escrita-9851887.html)

Daquelas barragens derivaram 20 milhões de "extras" à Odebrecht e grupo Lena, trocos que estão na Operação Marquês às costas de Sócrates, Mexia e Manso Neto.

Mas voltemos atrás. Quando em 2009 a RTP2 aprovou um documentário do jornalista Ivo Costa, "O Sabor da despedida", mergulhei ainda mais no vale. O doc ainda não está digitalizado no RTP Arquivos, mas alguém o pôs em várias janelas do youtube, https://www.youtube.com/watch?v=qBmvzS2OVRg e assim ficou gravada uma parte da memória do Sabor. Entretanto, no Tua, Jorge Pelicano, fez outro, "Pare, Escute e Olhe", https://www.youtube.com/watch?v=FTihP0Xmxbc. Daquilo já não há.

Aqui chegados, três conclusões. Primeira, no dossier barragens, só o Bloco de Esquerda tem moral para falar. O PCP alinha no respeitinho pelos sindicatos da elétrica, que gostam de obra feita. Segunda, a esperança no "ethos" do novo presidente da EDP, Miguel Stilwell, desapareceu logo no primeiro embate público. Nada de novo: a submissão é uma solução que vem no pacote de todos MBA e basta juntar água. Terceira: o tema hoje comove o país exatamente porque é líquido: "dinheiro". Voilá.

Mas então, já que estamos para aqui virados, olhemos para o obrigatório aeroporto da outra margem. Lisboetas de malas na mão viverão a dar o seu contributo para as portagens-monopólio de pontes sobre o Tejo-Vinci. Verificaremos também quanto nos custa em acréscimo de taxas nos bilhetes de avião o monopólio aeroportuário ANA-Vinci e a obra feita. Por fim, o betão-Vinci Montijo/Alcochete brilhará nas suas inevitáveis derrapagens com garantias públicas. A bela Ala dos Namorados cantava: "São os loucos de Lisboa / que nos fazem duvidar / a terra gira ao contrário / e os rios nascem no mar.

Ou dito de outra forma, "It"s the Muppet Show!". Não é fácil ser verde.

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