Atrás dos tempos vêm tempos

"Atrás dos tempos vêm tempos/ E outros tempos hão-de vir", diz a canção de Fausto. E os que se angustiam e fenecem com os tempos que correm deveriam pensar um pouco nos tempos que já foram, bem mais duros do que o nosso.

Há duzentos anos, o mundo sofreu o Ano sem Verão, nome por que ficou conhecido 1816, no qual, fruto da erupção do monte Tambora, na Indonésia, ocorrida em Abril de 1815, a Terra sofreu uma onda de frio prolongado que espalhou o caos, devastou colheitas e provocou as maiores fomes de que há memória em todo o século XIX. Tempestades gigantescas, chuvadas incessantes, inundações dos grandes rios, pandemias de tifo e de cólera, muitos milhares de mortos, talvez mesmo milhões, ao certo não se sabe quantos. O sol escondeu-se um ano inteiro, os céus cobriram-se de uma neblina escura permanente e o mundo mergulhou nas trevas, ainda mal refeito dos desmandos napoleónicos terminados em Waterloo, no ano anterior, em Junho de 1815. As cinzas dispersas na atmosfera fizeram com que a neve que tombou meses a fio sobre a Hungria tivesse um tom acastanhado e a de Itália parecesse tingida de sangue.

E, todavia, o génio humano permaneceu intacto, no meio de tantos pavores. Os pintores não deixaram de pintar nem os escritores de escrever, incorporando uns e outros, nas suas criações, o ambiente fantasmagórico que os rodeava. Já houve até quem descobrisse uma correlação entre os períodos de maior actividade vulcânica e a quantidade de vermelho usada nas pinturas feitas no Ocidente ao longo de séculos, de 1500 e 1900. Os crepúsculos de Turner e o amarelado difuso de algumas pinturas suas, com destaque para Canal de Chichester, de 1828, ou Dois Homens Junto ao Mar, de Caspar David Friedrich, de 1817, são consequência directa do Ano sem Verão, como o céu sangrento de O Grito, de Edvard Munch, pintado em 1893, é reflexo e produto das erupções do Krakatoa na década anterior, em 1883-84.

O Ano sem Verão produziu um dos mais bizarros e profícuos encontros literários de que há memória, quando, no mês de Julho desse aziago 1816, um conjunto de génios decidiu fazer férias em Cologny, nas margens do lago Genebra. Numa das casas, a Villa Diodati, vivia exilado Lord Byron e o seu médico pessoal, John William Polidori. Perto dela, na Maison Chapuis, ficaram Percy Shelley e a sua amante e futura mulher, Mary Godwin, filha do filósofo anarquista William Godwin e de Mary Wollstonecraft, precursora do feminismo. Com eles estava também Claire Clairmont, meia-irmã de Mary Godwin, que começara meses antes um affair com Byron - foi Claire, aliás, quem tivera a ideia de passarem férias na companhia do poeta. O novelo romântico é um pouco mais complexo, pois Claire, uma ardente defensora do amor livre, teve, além de Byron, um caso com Percy Shelley, o amante da sua meia-irmã e seu futuro cunhado.

Confinado por chuvadas torrenciais, o grupo passava o tempo a conversar, a drogar-se com ópio e a ler em voz alta Phantasmagoria, uma colectânea francesa de histórias de terror alemãs. Byron sugeriu, então, que organizassem um concurso literário em que cada qual escreveria um conto de fantasmas. O que daí resultou não tem grandes paralelos na história da literatura ocidental: Byron assinou Fragment of a Novel; Percy escreveu Fragment of a Ghost History e mais cinco contos fantasmagóricos; a partir de um texto de Byron, Polidori concebeu The Vampire, a primeira novela sobre vampirismo dos nossos dias, cujo tremendo sucesso influenciará decisivamente Bram Stoker na construção de Drácula; e Mary Godwin, futura Mary Shelley, lançou as bases de Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, que verá a luz em 1818. Quanto a Claire Clairmont, sua meia-irmã, não consta que nessa jornada tenha produzido obra literária de vulto, sabendo-se apenas que terminou as férias carregando no ventre uma filha de Lord Byron, Allegra, que o romântico poeta, contra a vontade de mãe, despachou para um convento, onde morreu de tifo, aos cinco anos.

O destino de todos, ou quase todos, pareceu estar amaldiçoado pelo concurso literário em que se aventuraram. No final do Verão, Byron dispensou os serviços clínicos de Polidori, que, após uma temporada em Itália, regressou a Inglaterra, onde O Vampiro foi editado sem sua autorização e, pior ainda, com o nome de Byron como autor (apesar de o poeta ter desfeito o equívoco, ainda hoje muitos julgam que a ele se deve o primeiro conto sobre vampiros). Não muito depois, em 1821, atormentado por uma depressão e afogado em dívidas de jogo, Polidori suicidar-se-ia com ácido prússico. Percy Shelley, por seu turno, decidiu exilar-se em Itália, onde morreu em 1822, aos 29 anos, num estúpido acidente náutico perto de Viareggio.

Os seus últimos anos foram uma sucessão de infortúnios: a primeira mulher suicidou-se, afogada; o sogro conseguiu tirar-lhe a custódia dos filhos; dos quatro filhos que teve com Mary, três morreram prematuramente; teve uma outra filha de uma mulher desconhecida, possivelmente da sua cunhada Claire, mas a criança morreu com pouco mais de um ano, em Nápoles. Quanto à sua mulher, Mary, a criadora de Frankenstein, suportou o fim trágico do marido e a morte prematura de três filhos, acabando por morrer nova, aos 53 anos, vitimada por um tumor cerebral. Byron encontraria a morte em 1824, aos 36 anos, em Missolonghi, sucumbindo a uma febre contraída enquanto lutava na guerra de independência da Grécia. Apenas Claire, a paladina do amor livre, parece ter tido uma existência longa e tranquila, morrendo aos 80 anos, em Florença, após ter-se convertido castamente à fé católica.

São muitas e bem conhecidas as influências que Mary Shelley teve na concepção de Frankenstein, desde as Metamorfoses de Ovídio aos poemas de Milton, de Coleridge e de Wordsworth, sem contar, naturalmente, com a sua própria experiência pessoal, atravessada por fundos sentimentos de culpa e de perda, decorrentes da morte da mãe, 11 dias depois de ela nascer, do desaparecimento prematuro do filho e da relação com Percy Shelley, clandestina, pecaminosa. Na novela ecoam também os grandes debates científicos da época e as discussões de salão que deleitavam cavalheiros como Shelley, Byron ou Polidori. Na infância, Shelley fizera experiências caseiras com electricidade e com fogo, incendiando o mordomo da casa e, noutra ocasião, chamuscando duas irmãs que lhe serviam de cobaias. E Byron, no poema Don Juan, louvou o galvanismo por ser capaz dar alegria aos mortos, estampando-lhe um sorriso no seu rosto cadavérico.

Como refere Andy Dougan num livrinho fascinante, Raising the Dead. The Men Who Created Frankenstein, as descobertas de Galvani desencadearam por toda a Europa uma vaga sem precedentes de experiências com animais e até com humanos, na mira de trazer os mortos à vida através de choques eléctricos. Em Glasgow, o número de estudantes de anatomia, muitos dos quais vindos da Irlanda, cresceu exponencialmente durante as guerras napoleónicas e, com a instauração do método de Paris, no qual cada aluno era chamado a dissecar um cadáver (em vez de ser apenas o mestre a fazê-lo), a procura de corpos aumentou para lá dos limites do razoável.

Um grupo de estudantes, a quem chamaram Ressurrecionistas, andava às noites pelos cemitérios, a profanar campas e a exumar cadáveres acabados de sepultar; noutra ocasião, foi descoberta uma carga macabra vinda da Irlanda, com dezenas de cadáveres de homens, mulheres e crianças indigentes, adquiridos num mercado mais do que negro por um comprador anónimo; em Edimburgo, foram presos dois homens, autênticos serial killers, que em 1827 mataram 17 infelizes para venderem os seus corpos, a 15 libras cada, à escola de medicina da cidade. Sempre que havia um enforcamento público, o corpo do justiçado era avidamente disputado por médicos e cientistas e os condenados, mais do que a morte, tinham pavor que os seus cadáveres fossem profanados e esquartejados perante uma plateia de alunos sádicos.

Um dos casos mais famosos foi o de Matthew Clydesdale, enforcado por homicídio em Novembro de 1818, cujo cadáver foi devolvido à vida, por alguns minutos, para espanto e assombro de todos os presentes no anfiteatro da faculdade de medicina de Glasgow. Nessa sessão, dois afamados professores, Andrew Ure e James Jeffray, animaram o corpo de Clydesdale com eléctrodos, fizeram com que a corrente galvanizasse os seus músculos e o movimento respiratório, o bater cardíaco. O auditório, apavorado, pôde ver os olhos do morto a abrirem-se, esbugalhados, como numa novela de terror gótico.

Ainda hoje muitos pensam que este caso inspirou directamente Mary Shelley, mas o facto é que a experiência de Glasgow aconteceu em 1818 e o esboço de Frankenstein fora feito dois anos antes, no Ano sem Verão. Ainda assim, e como nota Andy Dougan no livro atrás citado, à primeira edição de Frankenstein, saída anonimamente em 1818, outras se seguiram, já com o nome de Mary Shelley na capa; essas versões subsequentes do livro, um tremendo bestseller à época, incorporam de forma mais evidente as experiências de galvanismo, as quais tiveram marca indiscutível na construção da personagem do médico prometeico, o Dr. Viktor Frankenstein (ao contrário do que muitos julgam, Frankenstein é o nome do inventor louco, não da sua criatura monstruosa, feita com pedaços de vários cadáveres).

A carnificina não parou aqui. Em França, Xavier Bichat gabou-se de, em apenas seis meses, ter dissecado mais de 600 cadáveres, muitos dos quais sujeitos a experiências de galvanização. Na Alemanha, teve de ser proibido decapitar cadáveres humanos para experimentação, mas a prática prosseguiu com cães, gatos e outros animais que eram mortos e "ressuscitados" com requintes de barbárie. Muitos médicos arvoraram-se em Prometeus modernos, alguns dos quais ainda no século XX, como Robert Cornish, da Universidade da Califórnia, que tinha um canil com dezenas de cães, todos chamados Lázaro, cegos pelas suas cruéis experiências de reanimação. Em 1947, Cornish chegou a aplicar a sua técnica, sem sucesso, a um homem condenado no corredor da morte.

De tanta loucura e pseudociência, dos muitos Frankensteins do passado, algo acabou por nascer. Directa ou indirectamente, daí surgiram, por exemplo, os desfibriladores cardíacos, que salvam milhares de vidas todos os anos; ou a estimulação cerebral profunda (DBS - deep brain stimulation), usada no tratamento do Parkinson, e muitas outras técnicas utilizadas em doenças neurológicas ou em vítimas de acidentes, como o actor Christopher Reeves, o Super-Homem caído de um cavalo.

"Atrás dos tempos vêm tempos", diz a canção de Fausto. O saber científico, como bem mostra a pandemia que vivemos, devolveu-nos à vida, galvanizou-nos na esperança de um futuro melhor. Mas, para isso, a ciência tem de ser feita com consciência - desde logo, consciência dos seus limites e do imperioso respeito pela dignidade humana. Caso contrário, os tempos que virão serão piores, bem piores, do que os do Dr. Frankenstein e da sua criatura horrenda. Frankenstein foi o médico, não o pobre do monstro, coitado. Nos tempos que correm, devemos lembrar-nos disso.

Historiador

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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