Assis

Nestes perturbados dias em que o uso das palavras agressivas articula previsões e medos sobre os possíveis conflitos e agressões militares, que parecem subalternizar as preocupações, que deviam estar sempre presentes, com a guerra da pandemia, global, é seguramente útil lembrar o esforço das lideranças espirituais que, durante a Grande Guerra de 1939-1945 levou ao anúncio da "alegria da paz com lágrimas" pelos sofrimentos inesquecíveis. Durante o período que se seguiu, e com a liberdade geral da Europa que sofreu os adiamentos que continuaram a promover sofrimentos inseparáveis da longa falta de uma ordem em paz e cooperação, o Papa Francisco, com a visita que fez ao Iraque, e o respeito que lhe dispensaram, fez também relembrar a convicção manifestada durante a Guerra de 1939-1945, da intervenção das Igrejas na defesa da paz.

Talvez um grande símbolo de resistência pacífica, eficazmente desafiador do poder, tenha sido a do cardeal Mindszenty, primaz da Hungria. Os anos que passou nas prisões marxistas, diariamente punido fisicamente, e os longos anos que passou em reclusão voluntária na Embaixada dos EUA para que a sua presença animasse o povo, definem uma clara distinção entre a resistência e a violência, mostrando como a primeira não está necessariamente associada à segunda. Esta ligação com a resistência, sempre em nome dos valores cristãos, tem eventualmente revestido a condição de voz corajosa dos povos ou extratos sociais alienados, como se passa no Afeganistão, algumas vezes invadindo as áreas da política. E por isso a intervenção de João Paulo II com a Mensagem de Assis, fortalecendo a intervenção com que o Papa Francisco desenvolve hoje a doutrina da paz, a qual pretendia que fosse organizada a Nova Ordem Mundial, sustentando que cada nação tem direito à autodefinição, livre como comunidade: a interpretação de João Paulo II, pregando Assis, conseguiu que cada imprensa nacional lhe desse um especial relevo, pondo em evidência a esperança dos valores comuns de todas as religiões. Assisti a um dos extraordinários acontecimentos, no templo franciscano, sendo a missa dita por um cardeal católico, e presentes, por exemplo, as igrejas russa, protestante, da Etiópia, da Arménia, dos muçulmanos, dos judeus, todos com reverência comum e participada de igual objetivo dos valores da paz.

Recordo, por exemplo, e testemunho, esta declaração da comunidade católica da Banja Luka: "Vivíamos na grande diáspora, juntamente com os fiéis da Igreja Ortodoxa sérvia e da comunidade islâmica, na parte norte-ocidental da atual República da Bósnia e Herzegovina... sofrendo "depois" o massacre de crianças indefesas, violação de mulheres e raparigas, pesadas agressões, perseguições psíquicas e físicas de religiosos, prisões, torturas, e ainda mortes de sacerdotes, destruições sem motivo de numerosas igrejas e mesquitas... constrangimentos para participar na guerra contra o próprio povo."

O encontro de Assis repetiu-se e teve intervenções em situações de gravidade. A última a que assisti, e na qual era numerosa a participação de representantes civis de variadíssimas nacionalidades, teve como orador português Mário Soares. Para avaliar a importância histórica da iniciativa, sendo que estiveram presentes delegações católicas de 32 países e do Concilium Conferentiorum Episcopalium Europae, Banja Luka, ortodoxos, anglicanos, civis, luteranos e representantes do hebraísmo e do islamismo. A resposta da opinião mundial foi limitada, mas a crise atual, em que as intervenções dos discursos agressivos e anunciantes de que a pregada chamada dos fiéis da variedade das organizações acolhidas por João Paulo II, era evidente que não receberia de volta e a ouvir-se esta frase de um dos fiéis: "Espero que o perdão permaneça em meu coração... todos aqueles mortos... aquela violência feroz... como então era pior que então. Façamos que, pelo menos à geração dos nossos filhos não aconteça, na paz."

A doutrina que reprova a violência continua desafiada pelos factos. A intervenção tradicional do Papa católico na ONU servirá a paz recordando Assis. E não poderá ser esquecida na presente crescente crise no Afeganistão. Embora o presidente americano garanta que não muda a data para retirada final de Cabul, talvez considere sem fundamento a crítica de um dos seus generais que afirmou que a data tem de reconhecer primeiro que a realidade é oportuna. É urgente não esquecer que a crise ocidental vai necessariamente exigir a revisão dos efeitos surpreendentes de uma decisão que mais uma vez afetou a unidade interna do eleitorado americano e o juízo, que estava publicado, da ONU a respeito do futuro da ordem definida pelo estatuto que deve sustentar. A União Europeia, que já tem suficientes responsabilidades para a organização da segurança, assumiu como primeira obra, apoiar os direitos humanos atingidos pela desordem do Afeganistão. O projeto de Assis não pode deixar de ser chamado à intervenção.

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