As mãos pelos pés

Este subiu a pulso, literalmente. E chegou ao topo sempre a olhar para baixo, o que é estranho. Como estranho é pensar na misteriosa centelha de génio que o levou até lá, ao tecto do mundo, contra tudo e contra todos, contra todas as probabilidades, contra um destino inscrito na data e no local onde nasceu, uma aldeola de 4500 almas a cem quilómetros de Nápoles, na pobreza entranhada do Mezzogiorno. Viu a luz em Junho de 1898, em Bonito, assim se chamava a terrinha santa, e era o décimo primeiro filho de uma prole de catorze, sendo os pais dois camponeses pobres, paupérrimos. Cultivavam vinho, mas não o bebiam, porque as melhores colheitas eram para vender; semeavam trigo, mas nunca comiam pão branco, luxo reservado para as raras ocasiões de festa. Tudo quanto se ganhava era para pagar as dívidas contraídas no amanho dos campos e também, ou principalmente, para custear os estudos de Agostino, o menino-prodígio da família, que conseguira passar todos os anos sem nunca chumbar, e que os pais, com tremendos sacrifícios, enviaram para a Universidade de Nápoles, onde se formou espantosamente aos 19 anos, tendo logo sido convidado para dar aulas em Florença, também na universidade. Regressou a Bonito meses depois, pálido e emagrecido, mas por lá não havia médicos para tratar a pneumonia que contraíra no Norte. Morreu ao fim de dias, prostrado na cama. Os gritos de dor da mãe ecoaram muito tempo nas paredes daquela casa.

Com todo o dinheiro gasto na educação de Agostino, nada sobrou para o futuro dos outros filhos, que tiveram de seguir o caminho comum à maioria dos jovens da Itália pobre daquele tempo: um a um, os seus irmãos emigraram para a América, em vagas sucessivas, e, quando ele fez 9 anos, todos os rapazes da família tinham partido para longe, só restando duas irmãs mais velhas, nada mais. Quanto a ele, teve de abandonar os estudos na terceira classe, por falta de dinheiro dos pais.

Desde criança, muito criança, ainda mal sabia andar, escapulia-se sempre que podia para a oficina de Luigi Festa, o sapateiro da aldeia. Os pais tentaram atalhar essa vocação precoce, pois fazer ou consertar sapatos era considerado um ofício pouco digno e respeitável entre as gentes de Bonito. Empregaram-no num alfaiate, depois no barbeiro da terra, mas a tudo isso o jovem resistiu como pôde, tristíssimo, até ao dia em que uma das irmãs mais novas, Giuseppina, com 6 anos, foi fazer a comunhão solene sem ter calçado próprio para a ocasião. Na véspera, com materiais emprestados por Luigi Festa, Salvatore Ferragamo passou a noite acordado a confeccionar um par de sapatos para a sua irmã, o primeiro que fez na sua vida, a obra inaugural de milhares de criações que surpreenderiam o mundo pela inventividade técnica e pelo arrojo do estilo. Na manhã seguinte, foram tantos os elogios dos vizinhos aos sapatos da menina que os pais, resignados, condescenderam que o filho abraçasse para sempre o ofício de fazer sapatos.

A aprendizagem junto de Luigi Festa foi dura e agreste, com o mestre a dar-lhe trabalhos menores a troco de um salário miserável (além de o obrigar a cuidar-lhe do filho bebé, a horas e a desoras). Em tudo o pupilo se excedia, com apuro extremo e, ao fim de poucos meses, já fazia melhor calçado do que o velho sapateiro. Faltava cumprir o sonho de vestir os pés dos poderosos da terra, os signore, que teimavam em ir calçar-se a Nápoles. Foi para lá que Salvatore também se dirigiu, novíssimo, aos 10 anos, pouco depois de o seu pai morrer. Com o dinheiro emprestado por um tio padre, e depois de fazer uma longa caminhada a pé para apanhar o comboio rumo a Nápoles, partilhou na cidade uma cave imunda com alguns conterrâneos de Bonito. Foi então que, pela primeira vez na vida, passou fome a sério e, em certas ocasiões, quando o dinheiro faltava para pagar o catre, teve de dormir ao relento, em bancos de jardim, a olhar para o Castelo do Ovo.

Durante meses, quase um ano, correu os sapateiros mais afamados da cidade, na sofreguidão de aprender mais e mais sobre o ofício que era o seu, desde nascença. Foi explorado, como é evidente, mas, a crer em Shoemaker of Dreams, a sua autobiografia, publicada em 1957, ao fim de poucas semanas já sabia tanto como os mais velhos, mestres de muitas décadas na arte de fabricar calçado. Aos poucos, os donos das sapatarias começaram a admirar-lhe o engenho e o talento ímpar, e o salário foi aumentando, o que lhe permitiu alimentar o sonho de se estabelecer por conta própria. Fazê-lo na grande cidade teria sido uma temeridade absoluta: Salvatore regressou a Bonito e, com a ajuda do tio padre, contratou ajudantes, comprou peles e ferramentas, abriu uma oficina minúscula em casa dos pais, mesmo defronte da igreja da terra. Num golpe de génio comercial, percebeu que deveria abrir portas num domingo da manhã, à hora em que os fiéis saíam da missa, para assim os surpreender com as suas criações. Num ápice, Ferragamo conquistou a admiração dos senhores de Bonito e, com os negócios a correrem de vento em popa, em 1912, com apenas 14 anos, já era um comerciante próspero, com seis ajudantes a tempo inteiro.

Foi então que se deu outra viragem decisiva na sua vida. Um dos seus irmãos veio da América, visitar a família e, como trabalhava numa fábrica de sapatos, a Queen Quality Shoe Company, em Boston, pôde aperceber-se, extasiado, do génio de Salvatore para perscrutar a anatomia do pé humano ou, melhor dizendo, dos pés de cada ser humano, absolutamente singulares entre si, cada qual com a sua beleza específica e as suas mazelas próprias. Foi essa a razão que levou Salvatore Ferragamo a resistir aos apelos do irmão para vir para a América e tornar-se operário de uma fábrica de sapatos. Utilizar máquinas em larga escala, ceder às exigências da produção industrializada, uniforme e impessoal, indiferente à singularidade dos pés de cada qual, era algo que nem lhe passava pela cabeça.
Acabou, no entanto, por rumar à América. Com 16 anos, despediu-se da mãe e das irmãs, fez-se à estrada até Nápoles, daí embarcou num navio até Nova Iorque. Não tinha sequer idade para poder entrar sozinho nos Estados Unidos, mas a complacência dos fiscais da alfândega franqueou-lhe a entrada no Novo Mundo.

Chegado a Boston, disse ao irmão, uma vez mais, que nunca trabalharia numa fábrica de calçado e, apesar de não ter praticamente dinheiro nenhum, decidiu ir até à Califórnia, numa viagem épica, para se juntar a outros dois irmãos que se tinham estabelecido em Santa Bárbara. Escusado será dizer que todas estas andanças se processaram sem que Salvatore soubesse uma só palavra de inglês, prova de que, além do génio criativo, havia nele uma vontade avassaladora de singrar na vida que, de tão forte e tão poderosa, quase parecia fruto de sopro divino.

Em pouco tempo, Salvatore Ferragamo encontrava-se a fazer sapatos para as produções de cinema que, à época, estavam sediadas em Santa Bárbara. A primeira cliente foi Lottie Pickford, depois Mary Pickford, de seguida Pola Negri, Lily Sampson, Lolita Lee e outras estrelas do mudo. O jovem sapateiro inscreveu-se num curso nocturno de inglês e começou a frequentar assiduamente a biblioteca pública de Santa Bárbara, para estudar a evolução do vestuário ao longo dos tempos e assim satisfazer as encomendas para as grandes produções históricas de Cecil DeMille e outros (trabalhou para Os Dez Mandamentos, versão de 1923, e para O Rei dos Reis, de 1927, e tornou-se o sapateiro pessoal do cineasta e da sua família).

Não contente, matriculou-se num curso nocturno na University of Southern California, em Los Angeles, o que o obrigou a fazer, todas as noites, dezenas de quilómetros de ida e volta, a prova de que, além de talento inato, o sucesso se faz com esforço, imenso esforço; depois disso, fez um curso de Química por correspondência, na International Correspondence School, em Scranton, na Pensilvânia, e, não contente, estudou Matemática em Berkeley, na Califórnia, onde se licenciou aos 20 anos. Contratou ajudantes de várias nacionalidades - um velho inglês, que detestava as máquinas industriais tanto como ele, e um alemão diligente, Mr. Dietrich - para servir uma clientela cada vez mais numerosa e exigente, de Douglas Fairbanks a Gloria Swanson, passando por D. W. Griffith, Rodolfo Valentino, Theda Bara ou Dolores del Rio.

O deflagrar da Grande Guerra, com novas e brutais taxas alfandegárias aos produtos importados e de luxo, o declínio do cinema mudo e a transferência dos estúdios de Santa Bárbara para Hollywood obrigaram-no a mudar de novo, em adaptação constante. Os seus irmãos insistiram para que apostasse na reparação de calçado, como eles, mas Salvatore, contra tudo e todos, continuou a dedicar-se à manufactura de sapatos, com criações portentosas decoradas com pérolas de imitação, sedas exóticas, penas de colibris, peles de lagartos estranhos, diamantes verdadeiros.

A vida trar-lhe-ia mais desgostos do que merecia, o maior dos quais terá sido o aparatoso acidente de viação que vitimou um dos seus irmãos e o atirou a ele, que ia ao volante, para uma árdua convalescença de vários meses. Regressou a Itália em 1927, abriu loja em Florença, mas conheceria a falência em 1933. Aos poucos, com imenso esforço, a trabalhar 20 horas por dia, conseguiu reerguer-se. Fez botas especiais para Mussolini, fáceis de calçar; calçava a amante do ditador, Clara Petacci; teve Eva Braun a visitar-lhe a loja, escoltada por imponentes SS; Greta Garbo, numa só vez, encomendou-lhe 70 pares de sapatos, e Anna Magnani, ao que parece, tinha uns pés terríveis, cheios de mazelas e calos, fruto de uma infância dura.
Salvatore Ferragamo teve nas mãos os pés do mundo. Sabia as medidas pedestres de tutti quanti: entre as mais baixas, Rita Hayworth, Bette Davis, Carmen Miranda, Jean Harlow, Marilyn Monroe, Eva Peron, Ava Gardner, Marlene Dietrich, Gina Lollobrigida, Mae West; nas mais avantajadas, Katharine Hepburn, Norma Shearer, Ingrid Bergman, Sophia Loren ou Lauren Bacall. A rainha Isabel II, caso não saibam, calça 6B, o mesmo que Eva Braun, enquanto a rainha-mãe tinha pés 6C, mais do que a princesa Margarida ou a ex-rainha Maria da Jugoslávia. Além da clientela selecta, Salvatore fez sapatos ortopédicos para milhares de pessoas com problemas físicos, sobretudo crianças, pois conhecia, como poucos, talvez como ninguém, os insondáveis mistérios do pé humano. Quase tão misteriosos como a sarça ardente de onde brotou o seu génio inato, arrebatador. Salvatore Ferragamo, de pés calçados, fintou um destino marcado. Bravissimo!


Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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