Argentina e Portugal, 200 anos depois

Dois séculos. Duzentos anos. É esse o tempo decorrido desde que Argentina e Portugal se reconheceram mutuamente como nações independentes. A relação bilateral gerou feitos simbólicos de inegável força. Mas antes de revisitar esse ponto da história, vale a pena recordar outra façanha que influenciou o futuro das comunicações, do comércio e da própria cultura europeias e na qual ambos os países foram importantes protagonistas.

Trata-se da expedição de Magalhães, que esteve mais de sete meses - o maior período passado em terra - em território hoje argentino. Ali, há 500 anos, os navegadores celebraram a primeira missa, fundaram o Porto São Julião e exploraram o rio Santa Cruz, até que atravessaram o mar do sul, naquele que foi o primeiro contacto entre um corajoso comandante português e as populações da Patagónia.

As relações entre os nossos países mantiveram-se até 1821: o Tratado de Tordesilhas; o contrabando comercial; a introdução clandestina das ideias liberais em voga na Europa; a invasão napoleónica na Península Ibérica; a declaração de independência argentina e posterior campanha libertadora, liderada pelo general San Martín e por Bolívar, que triunfou na América do Sul.

Foi em 1821 que Portugal nos reconheceu como Estado soberano. O curso da história tornou-o no primeiro a fazê-lo, dado que o único país que se havia adiantado - o Havai - deixou, entretanto, de sê-lo. Tal ocorreu a 21 de julho de 1821, quando Juan Manuel de Figueiredo, comerciante português radicado em Buenos Aires, entregou, por instrução do governo português, ao ministro argentino Rivadavia os documentos correspondentes.

De facto, são vínculos fortes, os nossos, que poderíamos igualmente ilustrar com a célebre história de amor entre Marcelo T. de Alvear, futuro presidente da nação, e a cantora lírica portuguesa Regina Pacini; ou mencionado esse genial bisneto de portugueses chamado Jorge Luis Borges.

Todos estes relatos desembarcam no dia de hoje, momento em que a mão do destino parece trilhar um novo caminho a percorrermos juntos. E fá-lo em circunstâncias históricas excecionais, dado que durante o primeiro semestre deste ano Portugal presidirá ao Conselho da União Europeia e a Argentina ao Mercosul.

Antes disso, no final de 2019, o nosso Presidente Alberto Fernández, em vésperas de assumir o cargo, realizou a sua primeira viagem à Europa e visitou dois países: Espanha e Portugal. Em Lisboa encontrou-se com o primeiro-ministro António Costa, para conhecer em primeira mão a forma como Portugal emergiu da crise de 2008. Nessa reunião, vieram à superfície visões coincidentes sobre os rumos internos e internacionais.

O mundo pós-pandemia será diferente daquele que conhecemos. Não sabemos é se será melhor ou pior. Valores que supúnhamos incorporados nas nossas sociedades veem-se perseguidos por fantasmas revividos. Neste contexto, a conjugação de presidências institucionais entre nações vinculadas à defesa dos direitos humanos, da democracia, das liberdades, da inclusão social, das diversidades e da proteção ambiental, entre outros, deve constituir uma plataforma de lançamento para acordos que tragam benefícios para todas as partes, sem deixar de ter em conta o impacto geopolítico e estratégico que podem gerar.

Recordemos Cícero: "É preciso conhecer o passado para entender o presente e corrigir o futuro."

Viva a Argentina! Viva Portugal!

Embaixador argentino em Portugal

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