Aparar golpes de génio

A história de Helen DeWitt assemelha-se, em muitos aspectos, a uma história de Helen DeWitt. Os fragmentos biográficos disponíveis sugerem uma vida que se foi acomodando às exigências de várias categorias ficcionais: os exageros didácticos da parábola bíblica, as infusões multidisciplinares do divertimento pós-moderno, as distorções repetitivas da comédia desesperada. Perfis e entrevistas online mencionam um baú repleto de projectos interrompidos ou cancelados - e um rodízio impressionante de cataclismos pessoais e profissionais (um caso de stalking, um desaparecimento que chegou a ser noticiado pela Reuters, duas tentativas de suicídio, dois processos de falência, um computador destruído por um copo de ice tea entornado, etc., etc.).

A história também poderia ser uma história de mistério, com uma pergunta à qual a resposta parcial é o parágrafo anterior: dadas as condições objectivas (talento em bruto, recepção inicial), porque é que não existe um consenso mais alargado que reconheça Helen DeWitt como aquilo que é - uma das ficcionistas mais interessantes e originais do último quarto de século?

O seu primeiro romance, The Last Samurai, foi a coqueluche da Feira de Frankfurt de 1999 - com os direitos de tradução vendidos para 10 línguas diferentes, incluindo a portuguesa (uma edição da ASA apareceu e desapareceu sem deixar rasto). Um filme de Tom Cruise com o mesmo título subalternizou-o em pesquisas online, e, apesar de tiragens na casa das dezenas de milhares, o romance saiu de circulação em poucos anos. Depois: uma década de silêncio (com uma versão cómica do Livro de Job a decorrer nos bastidores) e uma "carreira" cuja descrição carece de imensas aspas. Um segundo "romance", uma "colaboração" com um "jornalista" "australiano", foi "publicado" em formato PDF no blogue pessoal da autora. Um terceiro romance, Lightning Rods (uma sátira perfeita, sem uma única nota falsa), foi moderadamente aclamado, antes de novo silêncio, e de uma intrigante colecção de contos em 2018. Pelo meio, uma presença regular e idiossincrática na internet 2.0, que foi usando para escoar "projectos" esotéricos, desabafos arrepiantemente íntimos e esporádicos pedidos de ajuda financeira.

The Last Samurai, mais de 20 anos depois, permanece uma luminosa excepção na ficção literária contemporânea, um romance que faz tantas coisas tão diferentes das que são feitas pelos seus congéneres que parece uma relíquia transviada de uma realidade alternativa: uma realidade em que, para começar pelo mais difícil de explicar, a virtude literária a que podemos chamar "generosidade" sofre uma drástica redefinição.

É rigorosamente impossível que qualquer resumo operacional do enredo não faça o livro parecer muito mais desinteressante e impenetrável do que é - e o próprio acto de o folhear não está isento de riscos: qualquer página pode devolver trechos em grego, japonês ou finlandês; sequências de algarismos; desordens tipográficas de várias ordens.

Quem quiser começar pelo outro lado - o mais simples - poderia dizer que The Last Samurai é a história de um menino-prodígio, situada no quadrante mais afastado possível dos modos habituais de contar histórias sobre prodígios (chamemos-lhe o eixo Salinger-Wes Anderson). Mais simples ainda seria descrever o livro como uma elaboração sobre uma convenção tradicional: a figura do órfão (que o romance vitoriano, por exemplo, aproveitou até à exaustão, com os seus Pips e Olivers e Davids e Heathcliffs e Janes e Beckys). Como todos os romances sobre órfãos, The Last Samurai é sobre o esforço de um indivíduo para crescer emocional e moralmente na direcção de uma identidade, sem a protecção nem o farol identitário dos pais, o que significa que tanto os perigos como as possibilidades são maiores.

Mas ao contrário de outros romances sobre órfãos, este é também sobre a retaguarda do génio e do talento, e sobre a natureza de tudo o que é "excepcional": sobre o que é, para que serve, que consequências implica para quem está por perto, que freios e contrapesos activa, que vítimas colaterais provoca. A protagonista e narradora da primeira metade do livro é Sibylla, descendente de uma longa linhagem de talentos musicais desperdiçados, que deixa uma licenciatura em Oxford pendurada e se vai sustentando (nos primórdios da internet) com um emprego penoso a digitalizar edições completas das revistas mais aborrecidas do mundo - de hipismo, de pesca, de bordados, etc. Uma ligação fortuita deixa-a com um filho para criar. Inspirada por exemplos clássicos de educação alternativa (Stuart Mill, Yo Yo Ma), começa a ensinar-lhe línguas estrangeiras com apenas três anos. Primeiro algumas palavras por dia, depois impondo-lhe um calendário de tarefas gradualmente mais complexas - e que têm a vantagem adicional de o manter ocupado enquanto ela transcreve mais um exemplar de Caça & Pesca para pagar a renda da casa. O resto da educação é delegado a visionamentos repetidos do filme Sete Samurais, que fornece alguns dos refrões mais frequentes do livro ("Um verdadeiro samurai será capaz de aparar o golpe!"), e também, segundo a teoria de Sybilla, 17 modelos de masculinidade para um rapazinho em crescimento: oito personagens, oito actores, e Kurosawa.

Quando cumpre 11 anos, o filho descobre a identidade do pai, e toma conta da narração. O livro esmorece, deliberadamente. Até aí, o leitor foi uma testemunha agradecida no interior de uma mente adorável e atarefada: presenciando, não uma sucessão impressionista de acontecimentos, mas uma sucessão não-linear de análises rigorosas (e quase sempre hilariantes). Os itinerários mentais de Sybilla seguem um GPS caótico. Estamos longe, muito longe, dos trilhos banais do realismo psicológico: o que excita a criatividade da autora não é a procura de estratagemas técnicos para representar processos de consciência, mas o inventário rigoroso da quinquilharia heterogénea que ocupa um cérebro original num dia igual aos outros.

Quando o filho se apodera do livro e inicia uma épica busca pelo pai, o instinto do leitor é antecipar a reorientação para uma das narrativas mais ubíquas da cultura popular, em que hereditariedade é destino, e há sempre Luke Skywalkers ou Harry Potters prontos a demonstrar que uma vida inteira é estruturada como consequência de um acidente genético e que a tarefa de vida consiste em descobrir e cumprir um destino predeterminado. Obviamente não é isso que acontece, porque o livro é demasiado idiossincrático para não dissolver qualquer vestígio esquemático na sua espontaneidade imaginativa. O que acontece, no entanto, é que a voz de Sybilla - também ela um prodígio, sob qualquer critério - vai desaparecendo, num eco das constantes interrupções que dominaram a primeira parte, em que a sua narração era intercalada com as perguntas de uma criança curiosa, em maiúsculas cada vez mais impacientes ("PORQUE É QUE ELES ESTÃO A DISCUTIR?" "QUEM É QUE FOI O RILKE?"). Um dos momentos mais memoráveis do livro é o concerto de um pianista japonês, que submete o público a nove horas seguidas da mesma sonata de Brahms, sem alterações a não ser um acompanhamento exótico (um berbequim, uma sirene). Quase no fim, três outras composições são tocadas de rompante, o que provoca em Sybilla uma reacção a meio caminho entre a epifania e o esgotamento: "Era como se depois da ilusão que é possível possuir uma coisa quinhentas vezes sem desistir de nada, ele dissesse, "Não, só há uma oportunidade, e quando acaba, acaba de vez"."

Chesterton comentou que todos os livros de Dickens se podiam chamar Grandes Esperanças e, na verdade, quase todo o cânone realista do séc. XIX é constituído por romances que se podiam chamar Grandes Esperanças, de Middlemarch a Guerra e Paz: histórias sobre a crueldade arbitrária do acaso, em que o labirinto barroco das motivações humanas já não tende inexoravalmente para o buraco negro a que a tragédia clássica chamava "Destino". No processo de perder a proeminência que a narrativa lhe dedicava, Sybilla continua a arrastar atrás de si a silhueta do que poderia ter sido, e a obrigar o leitor a reconhecer que conceitos como "prodígio" ou "génio" são sustentados por um aflitivo sortido de contingências e estruturas e ignoram todas as histórias que só são contadas uma vez, e depois acabam.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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