Ano novo

O problema da velhice é uma forte e exigente questão social, e antes disso uma relação pessoal com a vida que é necessário ser avaliada por cada ser vivo, vivendo e envelhecendo numa sociedade estadual que assume a grave circunstância de que tenha apenas oportunidade sua de atingir o envelhecimento pessoal. O sábio Lúcio Aneu Séneca, na sua Carta (XLIX), avisa o seu amigo Lucílio que "o que vivemos é um ponto, e ainda menos que um ponto, e ainda por cima, esta coisa tão pequena, para maior engano, a natureza a dividiu a fim de dar-lhe aparência de um prolongado espaço de tempo; de uma porção faz a infância, de outra a mocidade, de outra a adolescência, de outra uma certa descida da adolescência à velhice, e de outra à própria velhice".

Mas por outro lado anotava, na primeira carta, as vantagens da velhice, visitando a sua casa velha e a desmoronar-se, apesar dos cuidados, mas ressuscitando-lhe recordações de cada um dos tempos já vividos, concordando em que "a vida é mais agradável quando já começa a decair mas ainda não chegou à decrepitude, e também quando está a ponto de findar creio que tem os seus prazeres, ou, pelo menos, nessa estação, em lugar de tais prazeres nos satisfazemos de não necessitar de qualquer deles".

Este discurso individualista, que tem o corolário de recomendar lonjuras em relação à multidão, não insiste no serviço aos valores, que por exemplo Vieira, no Sermão da Quarta-Feira da Quaresma, pregado no ano de 1669, subordinou a este conceito - Quod debuimus facere, fecimus: "Quem fez o que devia, devia o que fez: e ninguém espere paga de pagar o que deve. Se servi, se pelejei, se trabalhei, se venci, fiz o que devia ao rei, fiz o que devia à pátria, fiz o que me devia a mim mesmo: e quem se desempenhou de tamanhas dívidas, não há de esperar outra paga." Esta mensagem tem por vezes de apoiar-se na idade, que junta a experiência à prudência. A regra interna, inovadora, de que hoje é frequente retomar a China inovada, mas contra a União Indiana, todos a falar livremente na cena internacional, sem aparecer, a requerer vigência o enigma mundial, como que pondo em revolta a deusa Gaia pelo facto de ter destruído a natureza. Nesta passagem do tempo em que a ONU na sua Carta de Direitos e respeito pela "terra casa comum dos homens", salvaguardando a independência da UNESCO, as palavras mantêm-se, os riscos alargam a incidência, a terra habitável em paz da "terra casa dos homens" afeta a relação entre superpotências. Tão comuns as crenças da técnica e da ciência, mas a violação da justiça natural chega a agravar a paz civil interna, como parece de novo atingir a história do passado da América do Norte. Não é sequer minimamente cívico o que se passa entre o passado presidente republicano e o atual pacífico presidente democrático. Subitamente, para aprofundar os conflitos depois do ano novo, parece animado o livro de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, com o título A Quarta Revolução, a Corrida Global para Reinventar o Estado, tradução de Miguel Freitas da Costa.

Não seremos seguros de que "a circunstância é apenas de maior cidadania, mas também de relevo aos valores políticos que vão mudar no século XXI os valores liberais da democracia e da liberdade com valores autoritários de comando", mas tem de aceitar-se que os riscos podem ser maiores. Não deve ser difícil que mereçam interessar os interventores intelectuais que meditam com saber e autoridade a advertência da história nacional que documentava as suas culturas, no território nacional, quer pela adesão das populações originárias quer, mais tarde, para que as novas gerações terminassem com o regime de escravatura a sul dos EUA, exigindo implantar a igualdade da comunidade na vida corrente. Não é de consentir que no Ocidente possa implantar-se a conduta da lamentação que o conto de Queirós refere sobre os lamentos de Ulisses nos braços de Calipso: "Deusa, há oito anos que não olho para uma sepultura."

Temos assim que a brevidade do tempo humano, facto que levou Santo Agostinho a afirmar, como recordei, que "se dissera estou aqui, entre a primeira sílaba e a segunda já o estou não seria estou, nem o aqui seria o mesmo lugar, porque como tudo está passando, tudo se teria mudado", faz do tempo de cada homem um valor que se esgota, sem reposição possível, breve na duração, sempre mais próximo do total esgotamento. Infelizmente o novo ano encontra milhões de sepulturas injustas que obrigam a renovar a justiça global. O famoso livro do fundador da Stratfor, George Friedman, ao pretender definir os então "próximos cem anos" (século XXI) invocou, com prudência, que como Karl Marx referiu, e melhor do que ninguém, "a humanidade não coloca a si própria problemas para os quais não tenha ainda solução". É a situação da complexidade do ano novo.

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