Anda comigo ver os acidentes

Um dia antes de o MEL ter reunido as velhas direitas no Centro de Congressos de Lisboa para que pudessem ser todas publicamente esbofeteadas em simultâneo pela nova direita, um vídeo circulou pelo éter, ilustrando uma categoria diferente - mais séria, menos metafórica - de bullying: um grupo de crianças a perseguir outra, que ia fugindo pela berma de uma estrada. Quando a vítima atravessa a estrada para se afastar, o vídeo termina com o baque inconfundível de um impacto surdo e sem eco.

Todo o eco veio depois, no acto colectivo de reagir às coisas que acontecem em ecrãs. Como sucede após qualquer notícia que envolva qualquer tipo de violência exercida sobre crianças, muitas das reacções adoptaram a forma de pequenas peças individuais de teatro simbólico, em que cenários de retribuição hipotéticos são pormenorizadamente imaginados. Que coisas terríveis faria eu, caso acontecesse comigo, caso fosse com um filho meu, etc, etc. Há uma longa metragem de masoquismo portátil que cada pai transporta no interior da sua cabeça (uma das consequência de ter um filho é que a categoria "qual o seu maior receio?" fica automaticamente resolvida para sempre), e parte deste fenómeno deve-se ao efeito estimulante que a fúria condensada provoca; mas também mostra quão fácil é para qualquer pessoa transformar-se numa caixa de comentários ambulante quando confrontada com o tema certo. Pessoas que noutras circunstâncias são as primeiras a socorrer-se de termos como "populismo penal" dedicam-se a visualizar imagens de violência extrema, porque só essas imagens fazem justiça à intensidade das emoções que sentiram naqueles 15 segundos. Claro que há uma diferença entre aquilo que sentimos depois de pensar 15 segundos e aquilo que sentimos depois de pensar 15 minutos. Mas nas configurações actuais dos ciclos de produção e consumo de informação, os incrementos de 15 segundos nunca acumulam: não causam fricções suficientes para deixar marcas. São cumulativos apenas num sentido: apesar de parecerem acontecer sempre pela primeira vez, cada gota de água é sempre a última gota. Algo horrível aconteceu, e a única solução satisfatória é algo horrível acontecer a seguir, nem que a simetria seja imaginária.

Estes períodos de 15 segundos são a matéria-prima da direita que se auto-descreveu como "nova" no congresso do MEL, mas que é muito mais antiga que as velhas direitas. A diferença visível no palco do Centro de congressos não era tanto de idade, mas de níveis de realidade. Tal como muita da cripto-política praticada nas televisões, nos jornais e na internet, este fórum de reflexão - em que se pensou sobre a utilidade de pensar, e se exaltou livremente a ideia de liberdade - assemelhou-se a uma versão retórica das minas de bitcoin, com todas as externalidades da política (banalidade, reciclagem, processos arcaicos, tempo perdido, gasto de energia, fadiga acumulada) e nenhum dos seus aspectos produtivos.

Tal como a internet, o espaço permitiu a pessoas que querem e precisam de ter uma identidade política (com coerência estilística e programática), que pudessem exibi-la perante outras pessoas equipadas para a reconhecer, e com a mesma nostalgia por um período em que o duelo doutrinário parecia a coisa mais importante do mundo. A utilidade do conteúdo ideológico foi ser visível como conteúdo ideológico: todos aqueles livros e artigos não se leram sozinhos, e algum propósito utilitário hão-de ter. Mas para qualquer pessoa que não passe o dia investida em demarcar a sua identidade política das restantes identidades políticas através de marcadores simbólicos reconhecíveis (um investimento extremamente comum no Twitter, numa coluna de jornal, ou num campus universitário, e extremamente raro em qualquer outro local), estes talmudismos exóticos não terão grande importância. Poucas pessoas têm opinião sobre Burke, Oakeshott ou Rothbard, mas toda a gente tem opinião sobre o que deve acontecer a quem magoou crianças (a pior coisa imaginável), ou sobre o que é a corrupção (é má, e algo de que somos sempre vítimas e nunca beneficiários), ou sobre o castigo adequado para "os corruptos" (prisão perpétua e/ou enforcamento).

Ventura é diferente disto porque é o contrário disto: alguém cujo discurso é dirigido a pessoas que acham que não têm nem precisam de ter uma identidade política, e que acham que nunca estão sequer a pensar em política, mesmo quando estão a pensar em política. Pessoas que interiorizaram (ainda que a um nível subliminar) a lógica cultural das últimas três décadas - em que a grande "convergência" foi a consolidação de uma ideologia capaz de se confundir com o mundo, de negar plausivelmente que existe, e de explicar todas as suas características como parte de uma ordem natural, tão inevitável como a meteorologia, e tão invulnerável aos actos eleitorais como a temperatura do dia seguinte.

Ventura não só sabe isto, como nem sequer tenta escondê-lo. A meio do seu discurso, no segundo dia do evento, disse: "No debate ideológico pós-troika, a nossa única obsessão tornou-se o dinheiro: o défice, a sustentabilidade, as contas... Discutimos se faz sentido aumentar o IRS ou não, enquanto os liberais se perdem a discutir se faz sentido uma taxa progressiva ou uma taxa proporcional, o que para as pessoas lá em casa diz zero... Discussões que nós adoramos, mas vamos ser francos - interessam a 0,03% da população... Nós temos é que fazer os debates que interessam às pessoas". Que exemplo de contraste escolheu, para mostrar os debates que "interessam às pessoas"? A leitura do acórdão de Ivo Rosa : "todos assistimos àquela vergonha... o país inteiro discutiu como é que era possível".

O Chega aposta (ou pior, reconhece) que, para uma maioria passiva do eleitorado, a política não é de facto a colecta de impostos e a redistribuição de recursos - aquilo que objectivamente afecta as circunstâncias do seu dia a dia de mil maneiras diferentes e invisíveis - mas sim algo que acontece na televisão, nas margens de um sistema cujos serviços mínimos estão assegurados, e no qual não há nada para distribuir a não ser culpa e crueldade, nem nada para decidir a não ser quem nos irrita mais, de quem sentimos mais pena, e quem mais merece ser castigado.

No fim da sessão, Ventura partiu da frase-feita de um obscuro governador da Virginia, presença habitual em compêndios de citações online ("um radical é um liberal que excedeu o limite de velocidade"), para fazer uma excursão descontrolada pelo nexo metafórico do carro, do acelerador, da via rápida, da viagem sem mapa:

"Na democracia em que vivemos hoje, há muito que é tempo de ultrapassarmos o limite de velocidade... É tempo de pormos um bocadinho o pé no acelerador... Há quem diga que não sabemos onde vamos parar, há quem diga que a velocidade às vezes traz dissabores e acidentes... Mas eu prefiro o risco de ter um acidente do que ver Portugal a passar a vergonha de ser ultrapassado por países de Leste, como a Eslováquia ou a Letónia..."

Defender as vantagens de um acidente de viação é uma extraordinária novidade na retórica eleitoral. Mas mesmo aqui, o que sucedeu não foi qualquer lapso (a verdade a surgir inadvertidamente à superfície do discurso), mas o reconhecimento lúcido dos termos da questão e do contrato que propõe ao seu eleitorado potencial, constituído por todos os que se podem dar ao luxo de ignorar o que ele representa. Esse contrato não só oferece a construção automática de uma qualquer humilhação gravíssima, passada ou futura, capaz de caucionar todas as intensas emoções de 15 segundos, mas também a ideia implícita de que aquilo que está a ser oferecido não vai ter consequências reais. O diagnóstico não é apenas de vergonha, mas de tédio. E a promessa não é apenas de punições, mas também de entretenimento. Não se preocupem com serviços públicos, nem com dinheiro, nem com impostos (esses assuntos aborrecidos) quando há tantos perigos para recear, e vilões para detestar, e hipócritas para criticar, e corruptos para disciplinar, e histórias para acompanhar em vários ecrãs. E não se preocupem com o acidente, porque nós na verdade não vamos dentro do carro: não seremos vítimas, mas espectadores; estaremos do lado de fora, a ver na televisão. O caos, quando chegar, será para os outros.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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