Agora o Facebook proibiu a partilha de notícias na Austrália. E quem mais perde?*

*A guerra entre o governo australiano e os gigantes da internet teve esta semana mais um caricato episódio com o Facebook a assumir uma atitude inédita, enquanto a Google parece ter dado parte fraca no braço de ferro. Pelo meio, claro, estão os consumidores. Para já, quem ganha, é... Rupert Murdoch?

Parar um bocadinho, respirar fundo e pensar. Pelo menos no meu tempo dizia-se "contar até dez". É algo que decididamente já não se usa. A nível nenhum, do mais comezinho ao científico.

Temos demasiados exemplos diários que nos demonstram isso mesmo. O mais recente que apanhei: académicos afirmam que "amamentar" (breastfeeding) é eticamente problemático por atribuir papéis de género (curiosamente de algo que só as mulheres podem fazer) e sugerem passar a usar a palavra chestfeeding ("peitamentar"...) que é mais neutro... E como se a idiotice não fosse suficiente, a coisa -- inventada por americanos em 2016 --, parece estar a ganhar tração em alguns círculos médicos no Reino Unido.

Entretanto, na Austrália...

O governo australiano anunciou que iria aprovar uma lei que vai obrigar as grandes empresas da internet (Google, Facebook....) a pagarem pelo uso e partilha dos conteúdos noticiosos. A dada altura (cheguei a escrevê-lo neste espaço) a Google chegou a ameaçar simplesmente sair do país.

Entretanto houve evoluções. Caricatas por acaso. Tentemos sistematizar.

- A Google decidiu negociar com os media para lhes pagar alguma coisa. Vitória do governo e dos pobres órgãos de comunicação social, dirá o leitor. Bem, não necessariamente. Na realidade, a Google abriu conversações com apenas os três maiores publishers australianos e estará já a pagar alguns royalties a essas empresas. Uma delas é o império dos media do multimilionário Rupert Murdoch que, neste momento, é sem dúvida um vencedor desta guerra. Parabéns, sr. Murdoch, a sua fortuna ficou um bocadinho maior -- seguramente aquilo que o governo "lá de baixo" pretendia, aposto!

- O governo australiano permanece totalmente imóvel na sua posição, aliás, corrijo, ainda mais acirrado. Continua a afirmar que a lei é para aprovar (de nada adiantaram, aparentemente, as negociações da Google com os editores). A posição permanece: quer queiram quer não, vamos obrigá-los a fazer como a gente quer, independentemente do que possam estar para aí a combinar.

- O Facebook esta semana agudizou a situação, francamente, ao ter tomado uma atitude igualmente idiota. Mark Zuckerberg simplesmente veio dizer que, "com muita pena", iria ter de proibir a publicação e partilha na maior rede social do mundo de links de notícias.

O que é só, obviamente, ridículo. Por muitas e variadas razões.

Desde logo, isto teve uma consequência caricata. Não é tecnicamente fácil ​​​​​​​fazer a distinção entre os links de fontes "noticiosas" e quaisquer outros. Resultado: nas primeiras horas em que a "proibição" entrou em vigor, algumas páginas oficiais do governo (incluindo pelo menos uma ligada à Saúde) foram detetadas como sendo "proibidas", bem como outras mais pequenas, que não eram de notícias "sérias" mas sim satíricas.

O Facebook corrigiu a situação em poucas horas, mas o caso não ajudou nada à forma como a empresa fica na fotografia.

Depois, e será quase escusado dizer, proibir a partilha de notícias verdadeiras na maior rede social é uma ótima forma de promover informação falsa, por exemplo. Mas, aparentemente, neste momento essa questão é absolutamente irrelevante para Zuckerberg -- o homem que ainda aqui há uns dias se dizia campeão anti-fake news.

Como dizem os americanos, I laugh my evil laugh...

E que tal rever um bocadinho as prioridades?

Só há uma fação que está a perder nesta guerra: os australianos. Os mesmos que, obviamente, não vão sair em massa da rede social que usam todos os dias só porque não vão poder lá ler as notícias dos jornais (não, caros colegas/companheiros/camaradas jornalistas, o que escrevemos não é suficientemente importante para eles fazerem isso, lamento dizer).

Os utilizadores dos serviços online estão e estarão onde os seus amigos estão. O Facebook está a perder público nas faixas etárias mais jovens porque estes -- os amigos destes -- estão todos no TikTok ou noutra qualquer plataforma da moda.

A não ser que surja uma qualquer ação judicial a obrigar o desmantelamento do império de Zuckerberg, este desmoronar-se-á apenas e só quando a maioria dos nossos amigos for para outra rede social qualquer.

Talvez um dia esta surja. Até pode ser de um momento para o outro. Mas, neste momento, conhece alguma candidata?...

Conclusões possíveis a esta data: Google decide dar dinheiro aos media que já têm dinheiro; Facebook decide não partilhar notícias legítimas, abrindo a porta a mais teorias da conspiração e outros disparates (pois fotos de férias e assim não pode haver, por causa do covid); o governo australiano acha que não há nada a negociar com ninguém, pois afinal de contas quem manda no país são eles.

Da última vez que estudei sobre regimes democráticos, era do povo que emanava o poder. E este, neste momento, é quem está mais mal servido com isto tudo. Mas sobre isso não vejo ninguém a preocupar-se...

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