Agora não dava muito jeito…

Desde 1985 até hoje - antes disso vivemos quase dez anos em PREC - os sucessivos governos, fossem minoritários, maioritários, de coligação ou de entendimentos parlamentares, sempre garantiram a aprovação de orçamentos. Fosse com abstenções táticas, como Marcelo líder do PSD fez nos tempos de Guterres, fosse com o queijo limiano, com a ajuda de deputados eleitos pela Madeira ou, simplesmente, com a formação de maiorias de ocasião, negociadas caso a caso.

Costa criou a geringonça, e será a geringonça, ao desfazer-se em três pedaços, que vai criar condições para um eventual e quase certo chumbo do Orçamento amanhã. Mas, se uma "crise política" não assusta, a ideia de um bloqueio e de um impasse depois de novas eleições tem um pouco mais que se lhe diga.

Desavindas as esquerdas que nos últimos cinco anos viabilizaram orçamentos, não tendo a direita, aparentemente, capacidade eleitoral para formar uma maioria, as eleições, e a devolução aos eleitores do poder de decidir, deixa campo aberto para um impasse que nunca aconteceu depois de 1985.

Podemos estar a caminhar para uma "italianização" da política. Ou, pior, uma "belgicanização". Governos frágeis incapazes de gerar maiorias ou consensos, acordos "inusitados" entre partidos de ideologia oposta, construção de governos que tentam agradar a todos e que acabam por não funcionar ou, pior, que governam mas não conseguem ter um rumo, uma estratégia ou um plano para o país. Ou governos "provisórios" que se arrastam durante meses, ou anos, à espera dos tais acordos firmes ou de maiorias eleitorais que permitam, de facto, governar e não apenas gerir.

Por estes dias, são muitos os que têm dito que nesta altura "não dá muito jeito" que haja eleições. Antes de todos, o Presidente da República, que já antecipava este cenário, mas só daqui a um ano. A precipitação e - a existir - a queda da governo baralha as contas de Marcelo e adianta um ano um calendário que estava anunciado paga o final de 2022.

Se houver eleições, quando houver eleições, com a direita a discutir as lideranças internas e a esquerda a atribuir culpas mútuas pelo chumbo do Orçamento, os eleitores terão de escolher que futuro estão a pedir para o país. Se preferem uma "ditadura da maioria", como Soares chamou às vitórias de Cavaco Silva, se uma pulverização de votos que torna difícil uma governação com objetivos, programa e mandato. As maiorias de Cavaco e a de Sócrates deixaram claro que - concorde-se ou não - os dois puderam executar a visão que tinham para o país, sem desvios nem negociações. Puseram em prática a agenda que foi sufragada pelos eleitores. Conseguiram, um e outro, com as devidas diferenças de tempo, fazer reformas estruturais e implementar medidas que achavam certas.

Mas não digam é que agora não dá jeito nenhum ir a votos. Quem pensa assim são uns presidentes de países com "democracias musculadas" que vão adiando eleições porque há sempre uma desculpa, uma contrariedade ou é preciso esperar mais um pouco porque falta sempre qualquer coisa.

Jornalista

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