Agora falando sério

Algo estranho se passava, e ela sabia-o bem. Ou antes, pressentia-o, suspeitava de que aquela vez não iria ser como as outras. Via mudanças bizarras na forma do seu corpo, no cansaço com que acordava pelas manhãs, no seu estado do espírito, nem pior nem melhor, apenas diferente daquele com que dera à luz todos os outros, os mais velhos: Ernest, Rose Marie, Thérèse, Daniel e Pauline. Houve ainda um outro, Léo, que morrera de pneumonia pouco depois do parto, e Pauline, a mais nova, nascera há menos de um ano - onze meses, para sermos precisos.

Agora, Elzire estava de novo grávida. Casara há menos de nove anos e tinha já cinco filhos. Nem ela nem o marido eram ricos, longe disso. Viviam numa quintarola nas proximidades de Corbeil, uma comunidadezinha do Ontário, no Canadá, e a quinta nem vinha sequer no mapa: os Dionne eram agricultores remediados, só isso. Ao terceiro mês de gravidez, Elzire queixou-se de cólicas, perdeu algo pelo ventre. O Dr. Allan Roy Dafoe, o médico que a acompanhava - e que nem imaginava, é óbvio, que isso lhe traria a Ordem do Império Britânico -, diagnosticou uma "anomalia fetal", tal era o tamanho da barriga, mas pouco mais podia fazer naquele lugar, naquele tempo.

Na noite de 28 de Maio de 1934, Elzire Legros Dionne entrou em trabalho de parto. O marido chamou as parteiras à pressa, a velha tia Donalda e madame Benoît Lebel, as quais mal tiveram tempo de estancar a inaudita descarga ecológica: cinco bebés minúsculos, do tamanho de grãos de mostarda, mas nascidos sãos e salvos, oh prodígio da natureza. Ao todo, as gémeas, pois eram meninas (e univitelinas) pesavam pouco mais do que seis quilos, mas nem se lembraram de pesá-las uma a uma, tal o frenesi daquele parto. Enquanto iam saindo do ventre materno, as parteiras embrulhavam-nas em pedaços de lençóis ou em guardanapos velhos e arrumavam-nas ao canto da cama, tal qual os dálmatas do filme. Ante o fenómeno jamais visto, os vizinhos apressaram-se a ajudar, e trouxeram uma cesta de vime, grande, enorme, daquelas que carregam fruta, onde as quíntuplas foram colocadas entre cobertores aquecidos. Levaram-nas depois para a cozinha, puseram o cesto ao pé do fogão e massajaram-nas uma a uma com azeite, suavemente. Nas primeiras 24 horas, foram alimentadas com água adoçada com xarope de milho e ao segundo dia de vida já estavam a ser mudadas para um cesto de roupa suja, maior de tamanho, e aquecidas com botijas de água quente. Não muito depois, começaram a dar-lhes a fórmula dos recém-nascidos: leite de vaca, água fervida, duas colheres de xarope de milho, duas gotinhas de rum para estimular o apetite.

Não tardou que a boa nova se espalhasse. Tudo começou quando o tio das crianças quis difundir a notícia num jornal local, perguntando se poderia publicar o anúncio de um nascimento quíntuplo pagando o preço de um só. Depois disso, a quinta dos Dionne começou a ser inundada por cartas vindas de todo o país, oferecendo ajuda e dando conselhos vários de puericultura (uma das missivas, vinda de Appalachia, na remota Virgínia, recomendava vivamente o uísque de centeio para prevenir diarreias). Como sempre sucede, não faltaram os oportunistas e, poucos dias após o parto, os Dionne foram contactados pelos responsáveis da Feira Mundial de Chicago, para que as quíntuplas fossem lá exibidas urbi et orbi (na altura, informa a Wikipédia, era hábito exibir bebés em incubadoras em circos ou em exposições daquele género). O médico que assistiu ao parto, o Dr. Allan Dafoe, e o confessor da família, o padre Daniel Routhier, convenceram o pai a assinar, mas este, dias depois, caiu em si e quis revogar o contrato, alegando que a sua mulher nada dissera nem assinara papel algum. Nem isso demoveu os homens da Feira Mundial. As suas ameaças foram tais que os Dionne, para se verem livres deles, cederam a custódia das crianças à Cruz Vermelha, por um período de dois anos, com o compromisso de as meninas receberem cuidados médicos em troca. Mesmo assim, Elzire e Oliva Dionne tiveram de viajar até Chicago, onde foram mostrados como "Parents of the World Famous Babies". Pior do que isso, o primeiro-ministro do Ontário, apercebendo-se do potencial turístico, e até político, das cinco meninas - a saber, Marie, Émilie, Yvonne, Annette e Cécile -, conseguiu que fosse aprovada uma lei, o Dionne Quintuplets Act, que as colocava sob tutela do Estado até perfazerem 18 anos, com o espantoso argumento de que isso visava evitar que elas fossem exploradas comercialmente por gente sem escrúpulos.

Aí começou o circo. Construíram uma creche perto da quinta dos Dionne, onde, três vezes por dia, as gémeas quíntuplas, vestidinhas de igual, eram levadas para um pátio ao ar livre para serem vistas pelos turistas, como animais num zoo. O terreno tinha cercas de arame farpado de mais de dois metros de altura, as gémeas eram tratadas como bichos raros, sujeitas a dezenas de exames médicos e a inspecções regulares, e acompanhadas por um batalhão de funcionários: três enfermeiras, uma governanta, duas criadas, três polícias. Ocasionalmente, os pais e os outros irmãos visitavam-nas, sendo esse o único contacto que as meninas tiveram com o mundo exterior até perfazerem 9 anos, exceptuando, claro está, a multidão dos visitantes que todos os dias se aglomerava no pátio para as observar à distância. O Dr. Dafoe (mais tarde acusado, e bem, de ter explorado inacreditavelmente os Dionne) impôs horários rígidos que não pusessem em causa o espectáculo das gémeas, visitadas diariamente por uma média de 3 mil pessoas, para as quais foi construído um parque de estacionamento nas imediações. Estima-se que, entre 1936 e 1943, as "Quíntuplas Dionne" tenham sido observadas por mais de 3 milhões de pessoas, entre as quais celebridades de Hollywood como Clark Gable, James Stewart, Bette Davis, James Cagney e Mae West. Toda a gente participou na festa: os pais Dionne vendiam aos turistas autógrafos das filhas, lenços, chávenas, pratos, postais com os seus rostos, e as duas parteiras, convertidas em celebridades, trabalhavam nas cinco lojas de souvenirs da área, na qual as autoridades depositavam montes de pedras que se dizia terem poderes curativos da infertilidade; todos os dias era necessário renovar o stock das pedras mágicas, cobiçadas avidamente pelos forasteiros. A creche tornou-se a maior atracção turística do Ontário naquela época, superando as cataratas do Niágara, e, na América, só o Radio City Music Hall, de Nova Iorque, o Mount Vernon e o campo de Gettysburg ultrapassavam a quinta dos Dionne em número de visitantes. Calcula-se que, ao todo, as gémeas geraram receitas para o estado de Ontário da ordem dos 50 milhões de dólares.

Em finais de 1943, a família voltou a viver junta. Após as gémeas, os Dionne tiveram mais três filhos, o que significa que, ao todo, foram pais de 13 crianças. O reagrupamento familiar não trouxe, porém, a felicidade desejada: as gémeas passavam muito tempo fora em tournées e em compromissos comerciais, entraram em três longas-metragens de Hollywood, enquanto os pais as tratavam como se fossem uma entidade homogénea, ao invés de as verem como cinco jovens diferentes, com individualidades próprias. Anos depois, as gémeas queixar-se-iam dos maus-tratos infligidos pela mãe e, mais grave do que isso, três das irmãs diriam que o pai abusava delas sexualmente. Viviam num ambiente de luxo, com dinheiro a rodos e com carros desportivos, sem na altura se aperceberem de que eram elas que pagavam aquilo tudo - e com juros. Em 1952, ao fazerem 18 anos, seguiram as suas vidas, pouco contacto mantendo com o lar paterno, que uma delas recordou como "a casa mais triste onde vivi algum dia". Das cinco, uma, Émilie, quis ser freira, mas morreu ainda noviça, aos 20 anos, com uma convulsão súbita. Yvonne acabou enfermagem, mas decidiu ser escultora e, mais tarde, bibliotecária, falecendo aos 67 anos em Montreal. Marie morava sozinha num apartamento em Nova Iorque, onde foi encontrada morta em 1970, vitimada por um aneurisma cerebral. Em 1981, um dos irmãos das gémeas abriu um museu dedicado às "Quíntuplas Dionne", que elas visitaram com os seus filhos, talvez para recordarem a tragédia que ali viveram. Em 1997, quando nasceram séptuplos no Iowa, as Dionne escreveram aos pais, pedindo-lhes que resguardassem as crianças da cobiça humana. Pouco depois, o governo do Ontário reconheceu o mal que lhes fizera e aceitou pagar-lhes uma indemnização de quase 3 milhões de dólares. Annette e Cécile Dionne ainda hoje estão vivas, têm 87 anos, e moram em Callander, no Ontário, a poucos minutos do local onde nasceram.

A história das gémeas Dionne é uma história sobre a natureza maravilhosa, que permite o nascimento e a sobrevivência de crianças como elas, mas também uma história sobre a avidez humana, que lhes roubou a infância e as explorou de uma forma miserável ao longo de anos. Como pai de gémeas - não cinco, apenas duas -, é doloroso ver como a ganância dos homens está a destruir irremediavelmente a natureza e, com isso, a aniquilar o futuro das minhas filhas. Há poucos dias, o meu amigo Rui Passos Rocha deu-me a conhecer as projecções terríveis, mas realistas, da Climate Change, uma respeitada organização não lucrativa de cientistas americanos. Têm um mapa interactivo, que podem consultar na internet (coastal.climatecentral.org), e ver que, em 2030, dentro de nove anos - nove anos! - toda a reserva natural do Tejo e toda a lezíria junto a Samora Correia e Benavente ficarão abaixo do nível de água. O Montijo e Alcochete tornar-se-ão uma península, perdendo um décimo do território e, junto à foz do Mondego e à Figueira da Foz, uma enorme área até Montemor-o-Velho será devorada pelos mares. A ria Formosa e a Fuzeta irão praticamente desaparecer, o mesmo sucedendo a boa parte da costa de Ovar até Ílhavo. Outras zonas afectadas serão a região entre Caminha e Viana do Castelo, Esposende, Vila do Conde, Matosinhos, a foz do Douro, Espinho, Aveiro... As águas irão ameaçar todas as praias da linha de Cascais, a Costa da Caparica por inteiro, o estuário do Sado, Lagos e Portimão. A praia de Carcavelos tornar-se-á uma ínfima língua de areia e, em Lisboa, serão seriamente afectadas as zonas entre Belém, a Fundação Champalimaud e o Padrão dos Descobrimentos, o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas, o Beato até ao Museu do Azulejo, boa parte do Parque das Nações entre o Oceanário e a Ponte Vasco da Gama. Se virem o mapa, uma das áreas mais flageladas será o local onde as cabecinhas do Porto de Lisboa tiveram a brilhante ideia de erguer um gigantesco Terminal de Cruzeiros, para os mastodontes poluidores de que todos os portos da Europa se tentam livrar e que nós, como sempre, estupidamente acolhemos. Para quem julgue que é alarmismo, basta dizer que é muito curta a diferença entre os cenários mais ou menos catastróficos, isto é, mesmo na melhor das hipóteses as coisas vão ser de fugir.

Pensem, acordem: nove anos é já amanhã. Mas, no presente, o que vemos são hordas de grunhos a atropelarem-se uns aos outros no trânsito e nos automóveis, nas ruas, nos aeroportos e nas praias, hotéis atrás de hotéis (para quem?), prédios e mais prédios, moradias de luxo e estrelas da bola, políticos de pacotilha, cidadãos anestesiados pelo consumo e estupidificados pelo Facebook, portando-se como uma marabunta acéfala, indiferente à tragédia prestes a desabar sobre todos, sobre nós e os nossos filhos e netos. A covid bem poderia ter servido de lição, mostrando que a humanidade é uma e só uma e que apenas temos este planeta, só este. Mas não, ficou pior ainda, ainda mais egoísta, ainda mais voraz. Agora falando sério: está mesmo tudo lixado.

Nota: quem quiser saber mais, pode - e deve - consultar, entre tantos, o artigo "Coastal flood assessment due to sea level rise and extreme storm events: a case study of the atlantic coast of Portugal"s mainland", de Carlos Antunes, Carolina Rocha e Cristina Catita (in Geosciences, 2019, disponível online aqui: https://www.researchgate.net/publication/333360398_Coastal_Flood_Assessment_due_to_Sea_Level_Rise_and_Extreme_Storm_Events_A_Case_Study_of_the_Atlantic_Coast_of_Portugal"s_Mainland )

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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