Aeroporto: Lisboa e a farsa ambiental

Pode Lisboa continuar sem construir um novo aeroporto? Talvez não haja tema mais controverso e caro em Portugal, a par da hemorragia TAP. Há quase unanimidade política: tem de haver um novo aeroporto. Apenas PAN e Iniciativa Liberal propõem soluções alternativas ao consenso que se está a formar à esquerda sobre um grande aeroporto internacional em Alcochete. O PSD está com o Governo, ainda na versão Montijo, mas o Montijo acabou - não há estudo ambiental que o consiga viabilizar.

Portanto, o PS não vai ficar parado. Por outro lado, as opiniões académicas e políticas não admitem já outra hipótese que não seja o grande investimento de Alcochete, com "olhos no futuro". Só que hoje, como no passado, assistimos ao mesmo circuito fechado, impenetrável, invencível de interesses. Ora, as organizações de cidadãos, sem departamentos de marketing ou chorudas contas para investir, não conseguem contrapor argumentos. E os eleitores, confrontados com a amálgama de temas, supostamente legitimam males menores. Falso. O que estão realmente a escolher os lisboetas?

Há uma questão importantíssima na base do tema: a atual frequência de voos no aeroporto é péssima para a cidade. Poluição, ruído e risco são efeitos tremendos sobre a capital. Só que Alcochete demorará mais de uma década e elevará o patamar da dívida pública portuguesa a níveis ainda mais insustentáveis - a que se juntará a inevitável falência da TAP, cujo único trunfo é a possibilidade de se manter em Lisboa e afastar parte das low-cost para o lado de lá do Tejo. Se a opção "Lisboa sem aeroporto" vencesse, a capital perderia ainda mais gente e economia (transferindo apenas o ónus ambiental para longe).

Sabemos que o azedume económico do Chega não quer saber do ambiente, que o Bloco Central dos negócios vive historicamente do desenvolvimentismo e que Bloco e PCP estão preocupados em garantir poder e investimento na margem Sul.

Os 10 (ou 15, ou 20...) anos para erguer Alcochete terão, em contraciclo, uma transformação social gigantesca. Primeiro: os cidadãos vão poder continuar a voar quantas vezes quiserem, sem qualquer reflexo na pegada ecológica e com preços baixos? Se quisermos mesmo cumprir as metas de redução de carbono, isso é impossível, quanto mais não seja porque a isenção fiscal de que beneficia o querosene é ambientalmente insustentável. Em segundo lugar, a pandemia mostrou que as viagens de negócios passarão a ser menos necessárias. E, por fim, sabe-se já hoje que os aviões serão mais limpos, silenciosos e cada vez mais vocacionados para a longa distância.

É decisivo para Lisboa a manutenção de um aeroporto na cidade, mas com menos voos e melhores aviões. Alternativas de apoio: pode usar-se Beja (com melhor comboio até à capital), Monte Real (perto da Linha do Norte e A1), Alverca para a carga - e abrir outras localizações onde uma pista e um hangar sejam fáceis, e sem grandes impactos em redor.

Dispersar o risco e gerar riqueza noutros territórios, em vez de o entregarmos exclusivamente ao betão e ao sistema financeiro que o alimenta, é uma vantagem. Além disso, Alcochete aumentará colossalmente as taxas aeroportuárias, o que tornará Lisboa e o país ainda menos competitivos. E há a juntar o endividamento para novos acessos, pontes e logística aeroportuária.

O mundo mudou. As consequências ambientais estão já à vista. Mas na hora de se fazer, volta a velha política. O verniz ecológico descasca à primeira oportunidade. As grandes decisões continuam a ser as de sempre. "Business as usual".

Jornalista

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