Across the 110th Street

Há vidas e vidas, mas a deste foi qualquer coisa. Não existirão, na verdade, muitas autobiografias que comecem com a descrição de um homicídio ou, melhor dizendo, de uma tentativa de homicídio, em que o autobiografado teve a mulher a apontar-lhe uma arma à cara, olhos nos olhos, e a disparar o gatilho, em fúria. A bala raivosa falhou o alvo por um triz, mas, segundo ele diz, deu-lhe um penteado novo, uma auto-estrada aberta no alto do couro cabeludo, quase da testa à nuca. Barbara, a mulher em fúria, era viúva do melhor amigo dele, Sam, que fora baleado no peito - e à queima roupa - pela gerente de um motel em Los Angeles, tendo as autoridades concluído que o homicídio fora justificado, porquanto, segundo garantiu a gerente, Sam tinha entrado pelo escritório do motel dentro, enfurecido e nu, em busca de uma mulher que conhecera nessa noite numa boate e que levara para o seu quarto, onde a despiu e tentou violar. A mulher conseguiu saltar por uma janela e fugir rua fora, seminua, espavorida, mas Sam, julgando que ela se abrigara no escritório do Hacienda Motel, foi até lá, em fúria, e acabou morto.

Duzentos mil fãs acompanharam o funeral e a gerente do motel sofreu tantas ameaças de morte que teve de mudar de identidade e carreira, indo viver para longe, nos confins do Michigan. Décadas depois, a mulher que fugira espavorida da violação iminente foi condenada a prisão perpétua pelo assassinato do namorado e logo os fãs dele, animados por mil e uma teorias da conspiração, tentaram reabrir o caso do seu homicídio em Los Angeles. Já agora: ele chamava-se Sam Cooke e ficou conhecido como "rei da soul", pois foi na verdade pioneiro e nome maior desse género musical, um autêntico colosso. Morto aos 33 anos num motel de Los Angeles, a viúva casar-se-ia dois meses depois com um dos seus maiores amigos, dez anos mais novo do que ela, tão novo que, na primeira vez em que tentaram casar-se e se apresentaram no cartório (ele trajado a preceito com um belo fato do falecido...), com dezenas de repórteres à porta, foram rejeitados em grande estilo assim que o oficial do registo topou que o noivo era menor. Casaram-se tempos depois, mal atingida a maioridade, mas o enlace nunca foi bem visto pelos fãs de Cooke, furiosos por a rainha consorte da não ter ficado viúva até ao fim dos seus dias, como devia. O casamento começou mal, portanto, e acabaria pior ainda, à bala, com Barbara a alvejar Bobby, falhando o alvo por um triz, mas abrindo estrada até à cerviz. A razão da fúria era uma e só uma: Bobby embrulhara-se carnalmente com a enteada, menor de idade, filha de Barbara e de Sam Cooke, o maior amigo. Ao flagrar o delito, mesmo no quarto ao lado, Barbara puxou do revólver, calibre .32, e disparou, barbaramente. A filha nunca mais falou à mãe, gravou um êxito com Bobby (Woman's Gotta Have It, de 1972), casou-se com um irmão dele e fixou-se na África do Sul, onde, juntamente com os seus sete filhos, fundou o grupo The House of Zekkariyas, de moderado sucesso.

Confusos até aqui? É só um pedaço da vida flamejante de Robert Dwayne Womack, começada a 14 de Março de 1944, em Cleveland, Ohio, e terminada em Tarzana, Califórnia, 70 anos depois, a 27 de Junho de 2014 (o que ficou de permeio é contado numa autobiografia trepidante, frenética, My Story, saída em 2006 e reeditada logo após a morte deste génio musical absoluto). Terceiro de cinco filhos, Bobby nasceu num ghetto, nas raias da miséria. A família inteira vivia num apartamento de um quarto, com os pais a dormirem no sofá da sala e os cinco irmãos a acotovelarem-se na mesma cama. Comiam o que apanhavam nos caixotes do lixo duma mercearia das redondezas, focinhos e vísceras de porco, sobretudo. Pelos 5, 6 anos, Bobby perdeu a crença no Pai Natal, quando, por altura da quadra, o pai, cansado de Santa Claus ser história de brancos, decidiu disfarçar-se do dito. A família, ao vê-lo, gritou em uníssono "Ghetto Claus!" e Friendly Womack, despeitado, decidiu revelar-lhes a verdade verdadinha sobre o Pai Natal, desfazendo em minutos, mas para sempre, o sonho de cinco pobres crianças. Em troca, deu-lhes outro sonho, ainda maior, o gospel, que Friendly cantava com um grupo de amigos, os Voices of Love, tentando esquecer as semanas em que a família jejuava por falta de comida, dizendo o patriarca que o primeiro dia de fome era pelo Pai, o segundo pelo Filho e o terceiro pelo Espírito Santo. Ao final do terceiro dia, algo haveria de aparecer à mesa, nem que fosse um focinho de porco tirado do caixote do lixo. Assim se passou a infância e a primeira juventude de Bobby Womack num ghetto de Cleveland, no qual, na ausência de televisão e outros lazeres, o tempo era passado a lutar com gangues rivais, a fugir à violência racista de polícias a cavalo ou a espancar, por puro divertimento, bêbados tombados pelas esquinas.

Como todos os jovens, Bobby tinha um ídolo, o tio Grover, irmão do pai. Ao contrário deste, austero e espartano, temente a Deus e tenor de gospel, o tio Grover ostentava farta riqueza: jantava em restaurantes e bebia em bares, fumava charutos, andava impecavelmente vestido ao volante de um Chevrolet. Tais prodígios de hedonismo deviam-se, claro está, ao facto singelo de Grover Womack ser chulo encartado, com três ou quatro mulheres por conta, e, por mais que o pai de Bobby tentasse dissuadi-lo de seguir-lhe as pisadas, descrevendo o tio como encarnação do diabo, ou pior, o fascínio pelo bon vivant quase marcava um destino, não fora a música. Sem saberem ler sequer uma nota, Bobby Womack e os irmãos começaram a cantar juntos desde muito novos; primeiro, cânticos religiosos; a seguir, sons mais profanos, inspirados em Elmore James, John Lee Hooker, B. B. King, o que enfureceu o progenitor devoto, para quem aquela era música dos infernos. Aos poucos, porém, foi essa música que permitiu ao agregado ter comida na mesa, aparelho de TV e até telefone com número próprio. Ainda que em plano secundário, a participação em concertos de algumas vedetas tornou os manos Womack notados, apreciados, e não tardou a cruzarem-se no caminho de Sam Cooke, um jovem de 22 anos a caminho do estrelato eterno. Foi Sam quem lhes emprestou o dinheiro para comprarem um carro para irem até à Califórnia, tentar as sortes. Os manos Womack, que na altura já tinham adoptado um nome mais sedutor - The Valentinos -, quiseram fazer a viagem à grande, a bordo de um Cadillac. Demoraram duas semanas a chegar a Los Angeles no Caddy podre de velho, que atravessou Hollywood Boulevard empurrado pelos irmãos unidos, uma vergonha.

O início foi, pois, muito pouco auspicioso, mas o talento ímpar de Bobby Womack não tardou a impor-se. A ele deveram os Rolling Stones o seu primeiro hit, It's All Over Now. A ele devemos nós, comuns mortais, obras estrondosas como Lookin' for a Love, Harry Hippie e, sobretudo, Across the 110th Street, que Quentin Tarantino usou na banda sonora de Jackie Brown e cujo título evoca a rua de Manhattan que marca a fronteira entre Central Park e o Harlem: para cá, brancos ricos a fazerem jogging ou a passearem cães de luxo; para lá, chulos e prostitutas, traficantes e drogados, bêbados, criminosos e alienados, todo a fauna que Womack conhecia desde criança e que reencontrava agora, nos alvores dos anos 1970 (a música é de 1973), ao ficar hospedado no famigerado Hotel Cecil, uma espelunca da 118th Street com um clube de jazz onde, em tempos idos, tocaram Thelonius Monk, Count Basie ou Duke Ellington.

Womack conheceu a fama e a fortuna, escreveu sucessos tremendos, compôs para os Stones e para Janis Joplin, privou com os grandes, Muhammad Ali, Marvin Gaye, James Brown, Ray Charles, etc. Nunca deixou, no entanto, de ser um miúdo do ghetto que largara a escola ainda criança, incapaz de se governar, de ter uma conta bancária ou de saber o que eram impostos. A sua vida pessoal foi, no mínimo, atribulada: casou-se com a viúva do mentor e amigo, contra tudo e todos, incluindo os manos Womack, que lhe deram uma valente sova pelo matrimónio sacrílego; envolveu-se com a enteada, foi alvejado pela mulher; o seu filho mais velho, Vincent, caiu a fundo nas drogas, fez-se criminoso de rua, foi preso várias vezes, matou-se aos 21 anos com um tiro na cabeça; outro filho seu, Truth Bobby, morreu tragicamente com apenas 4 meses, quando caiu por acidente do berço, num episódio de lamentável incúria dos pais, entretidos em folguedos íntimos; um dos seus irmãos foi morto pela mulher com uma faca de cozinha, por suspeitas de traição (descobrira roupas femininas íntimas num armário, que não eram pertença de uma amante do marido mas de uma das muitas namoradas de Bobby, sempre ele).

Mergulhado na coca durante quase toda a vida adulta, gastador perdulário em ameaça de ruína, Bobby Womack, como a esmagadora maioria das vedetas negras, foi uma figura trágica, incapaz de se libertar do ghetto e seu legado. O seu declínio e queda são, num certo sentido, um eloquente retrato da América, uma terra onde ainda hoje, caso não saibam, a taxa de mortalidade dos bebés nascidos de mulheres afrodescendentes é superior à verificada na Albânia, no Cazaquistão, na China e em mais 70 países do mundo. Uma terra onde os negros representam 12% da população adulta, mas 33% da população prisional; em que um jovem negro tem cinco vezes mais possibilidades de ser encarcerado do que um jovem branco; em que o rendimento anual líquido de uma família branca é quase dez vezes maior do que o de uma família negra - e o fosso de riqueza entre brancos e negros é hoje maior do que há 20 anos, acompanhando o aumento das desigualdades aprofundado nas últimas duas décadas e que agora, com a pandemia, ainda mais se acentuou e acentuará.

De um lado e de outro da 110th Street, são dois planetas diversos, que se ignoram, que se guerreiam, e essa é uma ferida que sangra o coração da América. Enquanto não cicatrizar, ninguém terá paz e sossego - nem por lá, nem por cá.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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