Abrir e fechar

Na ansiedade do desconfinamento, recebi há escassos dias uma mensagem de uma amiga que dizia: "Sobre este tempo de pandemia: já arrumei o que tinha a arrumar, já organizei o que tinha a organizar, li os livros que tinha a ler, já vi os filmes que tinha que ver. Sinto a minha alma a desconfinar."

É verdade que os confinamentos me deram tempo e oportunidades que talvez não volte a ter tão cedo. Do Ulisses de Joyce à Odisseia de Homero, intercalados por tantos contemporâneos. Mas como para a minha amiga, e porventura para a maioria das pessoas, o segundo confinamento já não trouxe as oportunidades de descoberta do primeiro e o preço da poupança de tempo em deslocações é demasiado elevado para fazer um balanço tão positivo. A novidade foi-se. Fiz todos os bolos e cozinhados que tinha de fazer, mas continuo a ter muitos livros para ler e anseio trocar os filmes em casa pelo reencontro com as salas de cinema e de teatro, com os concertos e os museus.

A sede do belo não se mata, alimenta-se de muitas formas. Umas não excluem as outras, pelo contrário, somam-se e despertam-se reciprocamente. E faz parte da experiência a partilha, a troca de impressões e de emoções, a discussão dos ângulos, a vivência conjunta. A construção de memórias que não são apenas nossas, mas de muitas pessoas, mais ou menos próximas, e que nos estruturam. Se a alma também confinou, coisa de que duvido seriamente, também só desconfina quando puder estar com os outros. A partilhar o escuro do cinema e depois a escrutinar o filme com um petisco e um copo de vinho, ou a comentar uma exposição vista a dois, a três ou a muitos mais.

Este desejo de vida social tem muitas expressões, mas faz falta a todos, e talvez aos adolescentes e jovens mais do que a quaisquer outros. Confinar com 45 e 46 anos, como é o meu caso, não é comparável a confinar com 15 ou 17 ou na idade da faculdade, como não é comparável com o confinamento dos mais idosos. Para os adolescentes e jovens adultos, um só ano vale por muitos e o tempo simplesmente não faz pausa para depois retomar no mesmo ponto. Para os mais idosos, muitas vezes a sensação da escassez de tempo torna o isolamento mais difícil de suportar.

Odisseu (na opção da última edição da tradução de Frederico Lourenço, que prefere a Ulisses), herói por excelência, conhece muitos avanços e recuos nos 20 anos que esteve afastado de Ítaca, sua casa, e chora abundantemente cada momento, cada etapa, cada emoção. Na Odisseia, os homens choram copiosamente, sozinhos e abraçados uns aos outros. Faz-nos falta esse choro, individual e coletivo, de mulheres e homens de todas as idades, e o apelo à resiliência não o pode afastar. O que não acontecer agora encherá os divãs daqui a uns anos.

Hoje, a minha filha mais nova recomeça a escola, e isso, só por si, traz um sabor a normalidade. No próximo domingo poderei participar com a minha família na missa presencial, o que tem um significado existencial. O dia 19 de abril transformou-se numa data especial: terei a oportunidade de finalmente ver os meus alunos em sala de aula e nesse dia também os meus três filhos mais velhos voltarão à escola e à universidade. O cinema e o teatro, infelizmente, ainda terão de aguardar. Esperemos que seja em benefício de que o caminho não volte atrás. Podemos aceitar mais lentidão, mas será difícil suportar voltar a fechar.


Professora da Nova School of Law e coordenadora do mestrado em Direito e Economia do Mar.

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