Abdelmadjid Tebboune e o déjà vu argelino

O presidente (PR) da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, está de novo internado na Alemanha, remetendo todo "o hexágono" para um déjà vu recente, chamado Abdelaziz Bouteflika.

O PR Tebboune, 75 anos, foi retirado com alguma urgência e segredo para a Alemanha a 28 de outubro de 2020, por ter contactado com responsáveis do seu gabinete que se confirmou estarem infectados com covid-19. É aqui que começa o déjà vu, já que durante os dois meses seguintes os argelinos nada souberam sobre o seu estado de saúde, alimentando especulações sobre se seria mesmo devido ao vírus ou por outra razão desconhecida e mais grave. Este foi o registo normal da presidência Bouteflika, logo a partir do segundo mandato (cumpriu quatro mandatos, 1999-2019), tendo como marco o internamento em Paris, em abril de 2013, após um AVC que o debilitaria para sempre nas suas valências físicas e mentais. Durante 80 dias, os argelinos nada souberam sobre a sorte do seu número 1, adensando-se a especulação e as apostas sobre se continuaria vivo ou já estaria morto.

A diferença destes "velhos tempos" para a actualidade era a estrutura do poder, que tinha âncora num número 2 oficioso chamado general Tawfiq, o poderoso chefe dos serviços secretos militares, que através do seu "gabinete negro" governava o país com ou sem Bouteflika. O PR Tebboune, que foi quatro vezes ministro e uma primeiro-ministro de Bouteflika, pertence de facto a este núcleo restrito do poder das últimas duas décadas e, por isso também, foi o escolhido para operar esta transição que, a bem do Mediterrâneo sul e norte, se quer o mais suave e pacífica possível. Acontece que Tebboune "perdeu" a sua âncora militar.

De forma resumida, quando em Março de 2019 é accionado o artigo 102.º da Constituição e o PR Bouteflika é demitido, equivalendo isto a uma não recandidatura a um quinto mandato, quem de facto tomou as rédeas operacionais de Março a 12 de Dezembro do mesmo ano, dia da eleição do PR Tebboune, foi o general Gaid Salah, que durante esse período foi colocando homens da sua confiança no topo de todo o aparelho securitário do país, posicionando-se para ser o número 2 do novo PR, à imagem do que Tawfiq fora para Bouteflika. Acontece que G. Salah morre 11 dias após a eleição do novo PR, a 23 de Dezembro. Tebboune, na lógica e necessidade de não perder o controlo do processo, tem como prioridade substituir os nomeados pelo falecido, por homens da sua confiança. Ora são estes substituídos que podem agora conspirar contra quem ordenou as suas substituições.

Aliás, uma análise ao mais recente "fio do tempo Tebboune", por muito superficial que seja, denuncia precisamente esses cuidados. Ou seja, após dois meses de tratamento na Alemanha, regressou a Argel a 29 de Dezembro, assinou a Lei de Finanças 2021, promulgou a Nova Constituição, presidiu a um Conselho de Ministros, demitiu o major-general Mohamed Bouzit, diretor da inteligência externa e o Ministro dos Transportes Lazhar Hani, importante oligarca próximo do primeiro-ministro Abdelaziz Djerrad e regressou à Alemanha no passado dia 10, para continuar o tratamento covid.

Votos de rápidas melhoras senhor Presidente, que é uma Argélia estável que nos permite tomar duche com água quente todos os dias!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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