A vergonha da costureira

Mais do que comemorar a República, deveríamos empregar algum tempo a discuti-la. Os portugueses apreciam a democracia, mas revela o último Eurobarómetro que quatro em cada cinco desconfiam dos partidos, e que dois terços dos nossos concidadãos estendem essa desconfiança ao parlamento, ao governo e à justiça.

As sociedades são fundadas na confiança, umas com as outras e para com as instituições que cada uma cria para administrar o que é comum. Se essa confiança esmorecer ou mesmo desaparecer, quem vai gerir o que é de todos, a República, e com que legitimidade? Quando metade dos portugueses renunciam às urnas ninguém pode verdadeiramente proclamar-se vencedor.

Os partidos são, no nosso ordenamento jurídico, uma das principais vias de participação política a quem delegamos funções essenciais, como selecionar elites, articular as demandas dos cidadãos ou integrar interesses diversos. Ora, quando a desconfiança medra, a construção democrática vacila. Na política, não há espaço vazio. Se os partidos "tradicionais" não responderem, outros tomarão o seu lugar. Nos últimos anos, o desencanto deu origem a novas formações no quadro democrático. Resta saber se, de futuro, esse descontentamento se manifesta na forma de desinteresse ou alimenta o terreno fértil onde florescem os extremismos. Seremos na Europa o país que menos reformou o seu sistema de governo nas últimas décadas. Ora, se o espaço democrático está doente, é preciso saneá-lo. A desconfiança crescente entre cidadãos e partidos, o distanciamento entre eleitores e eleitos, e a cada vez mais reduzida militância deveriam prevenir para a urgência de uma reforma séria do nosso sistema político e eleitoral, tornando-o mais transparente, mais acessível e próximo dos cidadãos. Propostas não faltaram: mudar as leis eleitorais, repensar o regime jurídico dos partidos políticos e o seu financiamento, para não dar espaço à corrupção, enquadrar as associações cívicas e a sociedade civil, aperfeiçoar a regulação da comunicação social, reformar as autarquias e discutir a regionalização. Debalde! Os tradicionais só pegam de empurrão, e as poucas alterações não passaram de remendos e alinhavos que fariam corar de vergonha a costureirinha de Arraiolos que serviu de modelo ao busto da República.

A ação política profissionalizou-se, e os partidos funcionam hoje como aquelas grandes empresas onde não há diálogo nem democracia interna, e onde os chefes, mais preocupados com a sua reputação e imagem, vendem expectativas quando não ilusões - e à qualidade do seu produto preferem a perceção que se tem dele. Nas democracias modernas, os partidos nasceram e medraram como mediadores entre a sociedade civil e o próprio Estado. Mas têm acabado a ocupá-lo e a confundir-se com a própria burocracia das administrações central e local, que invadem cada vez que chegam ao poder, distanciando-se dos cidadãos que afirmam representar. Os partidos dos nossos dias, ou as suas caricaturas, não são um elo entre a sociedade e as instituições. São agências de interesses para satisfazer clientelas e dedicadas ao controlo de danos. Daí a crescente erosão na base das formações políticas tradicionais - cá, como em toda a Europa. A maioria dos portugueses aprecia a democracia, mas desconfia dos partidos. Acontece que não há democracia sem partidos. E do desencanto com os partidos à desilusão com a democracia, a história da nossa primeira República ensina que o caminho pode ser muito curto.

Jornalista

Mais Notícias

Outras Notícias GMG