A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Chegados a 2021, com pandemia ou sem pandemia, pouco mudou. Cá andamos. As ambições interplanetárias do PS subsistem, com o senhor ministro do Ensino Superior a promover uma "democratização do espaço" como "forma de promover mais e melhores empregos".

O senhor primeiro-ministro, habitualmente pródigo em manter os pés na terra, responde às preocupações do setor da cultura com "a transição digital", o que levou o eurodeputado João Ferreira a comentar, com graça, que pode ser que isso lhes mate a fome. O senhor ministro da Educação, se é que ainda lhe podemos chamar isso, celebra igualmente o seu contributo "para o pilar social", quando poucos fizeram tanto para agravar as desigualdades quanto ele e o atraso na distribuição de portáteis que assegurassem a continuidade do ensino. Há duas semanas, faltavam 300 mil computadores aos estudantes portugueses. No mesmo dia, Costa aplaudia a tão badalada digitalização da sociedade. Pelo caminho, anunciará que vamos à Lua.

Sobram, portanto, provas de que os nossos governantes residem numa realidade paralela, variadas vezes distantes do dia-a-dia do português comum, em que já ninguém se leva bem a sério. Para não ser injusto, tal não se resume aos senhores membros do governo. São Bento não detém o monopólio da alienação nacional, ainda que as suas responsabilidades sejam maiores e as suas irresponsabilidades carreguem consequências piores. Se a esquerda deseja genuinamente derrotar a extrema-direita, comece por ser mais do que uma mentira; por fazer da social-democracia mais do que propaganda e por reconverter o parlamento em mais do que uma feira orçamental.

Diante do maior desafio do país desde a conquista da Liberdade, tendo batidos recordes internacionais de incompetência no combate à covid-19, Portugal descobriu sozinho uma cura distinta da dos demais. A vacina portuguesa para a covid-19 é uma: a polémica.

Inoculados por esse antídoto, 15 mil fulanos subscreveram uma petição para deportar um ativista, uma agremiação de notáveis assinou uma carta contra as televisões que provocaria o deleite da DGS (a outra), um deputado lamentou a ausência de "sangue e mortos" na Revolução e propôs o arrasar de monumentos, um ex-presidente do CDS comparou um conselho nacional do partido à invasão do Capitólio, uma candidata presidencial avaliou a estética capilar de um adolescente, um capitão de Abril culpou "os judeus" por comprarem vacinas e uma série de gente estimável lutou por manter brasões ultramarinos na Praça do Império.

Entre a jardinagem, a demolição, a censura, a deportação e os cabeleireiros, confesso encontrar-me intensamente dedicado à escrita. A professora Susana Peralta diria que tal constitui um pecado burguês. Não seria mentira.

Colunista

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