A soberba marroquina

Tendo já passado a principal espuma sobre Ceuta, que permitiu identificar um casus belli menor e imediato para o crescendo da actual guerra diplomática entre Marrocos e Espanha, resta-nos procurar explicações mais profundas no tempo e no espaço, que nos permitam uma perspectiva de vistas mais largas, no sentido de perceber o porquê desta mesma crise e da postura, considerada cada vez mais arrogante e incompreendida, por parte de Marrocos.

Em primeiro lugar, Marrocos ao operar a inevitável mudança geracional com a entronização do jovem Mohamed VI, em 1999, vê também a renovação da equipa de conselheiros do seu gabinete, embora tivesse mantido uma meia dúzia de conselheiros de seu pai, aqueles considerados falcões para as áreas política e económica. A manutenção destes obedeceu a um período oficioso de transição, sendo que a velhice empurrou, naturalmente, esta elite para a merecida reforma e o monarca foi-se rodeando cada vez mais pelos seus antigos colegas de escola. Imbuídos de novos valores, novas perspectivas, todos formados nas melhores escolas do Ocidente e, sobretudo, com a noção de que o mundo estava a mudar, foram alimentando a ideia, de certa forma correcta, de que Marrocos não poderia estar permanente e eternamente dependente da União Europeia (UE). É a partir daqui e, já com a Primavera Árabe a ameaçar mudanças que poderiam alterar a estrutura do regime, que começam a diversificar alianças com a Rússia, a China, a Índia, a Turquia, a tomar opções entre as disputas dos primos do Golfo e a firmar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos da América.

A nova Constituição de 2011 é, aliás, a última concessão de monta que Marrocos faz à UE, já que se trata da reforma política que lhe devia, desde que garantiu o chamado Estatuto Avançado com a UE, em 2007, acordo que lhe permite taxas aduaneiras preferenciais com este parceiro europeu, face aos restantes estados africanos. É também através desta Constituição, que no seu preâmbulo Marrocos assume a sua identidade africana, indicando desde logo uma ambição continental.

Em segundo lugar, não negligenciar os anos mais recentes, pós-Primavera Árabe, nos quais a consolidação do regime assentou num binómio esquizofrénico entre obras públicas de monta e coabitação com um governo islamista. Obras públicas essas que consolidaram a aposta Tânger-Med, o maior porto marítimo em África, com a construção do TGV Tânger-Casablanca, cujo investimento contempla a inevitabilidade da construção nos próximos dez anos de um túnel que ligará África à Europa. Um placebo que dá perspectiva ao investidor.

O ano de 2018 é essencial para se perceber nas palavras o que ia nos corações e nas mentes marroquinas, já que foi o ano da inauguração do TGV e do lançamento do segundo satélite marroquino, quando o primeiro fora lançado em 2017. A euforia foi tal, que a imprensa e a população falavam em "ciência marroquina"! Estava tudo ali, materializado a seus olhos e pronto para a fruição pública.

Perante isto, parece-me lógico perceber que o episódio de Ceuta se poderá tratar de um sinal mais para a UE do que para Espanha, sobre as opções perante o futuro próximo. A soberba marroquina é querer ser tratada como potência regional/continental, não tendo vocação para ser o gendarme ou o concierge da Europa, conforme referiu o MNE marroquino Nasser Bourita nesta semana.

Politólogo/arabista.
www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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