A serenidade do povo é como o tabaco. Mata devagarinho*

*Um passeio pelo centro do país mostrou-me bem como os negócios ligados ao turismo estão a sofrer. Do lado dos empresários, resta-lhes a esperança... mas até quando?

Pode o negócio de um turismo rural com mais de 30 quartos sobreviver quando durante a semana, em finais de junho, tem dois (2) quartos ocupados? Sim, claro que sim, desde que isso não aconteça por muito tempo...

Na primeira noite em que lá dormimos, eu e a minha mulher, no sopé da Serra da Estrela, abriram o restaurante só para nós. Afinal, tínhamos marcado jantar e prova de vinhos há mais de mês e meio, pelo que não iriam dizer que não. Os outros hóspedes -- do tal outro único quarto ocupado -- não quiseram jantar no hotel nenhuma das noites, segundo nos disseram.

Este atendimento ultrapersonalizado repetiu-se na noite seguinte, noutro local: um magnífico restaurante junto a quedas de água a poucos quilómetros dali. Tínhamos marcado mesa de véspera, tudo acertado, e quando chegamos a dona diz-nos que estamos à vontade para escolher onde nos queremos sentar. Seríamos os únicos naquela noite.

"Ao almoço isto nem foi mau, mas agora... mas sim, estamos abertos e estejam descansados, o serviço terá a mesma qualidade", disse-nos a d.ª Alice. E sim, teve. A comida foi excelente!

Mas o que pagámos dificilmente justificou o custo do gás, eletricidade, etc., bem como o de estarem a noite toda abertos ao público, digo eu que não percebo nada disto...

Talvez por isso muitos dos cafés e restaurantes à beira da estrada em vilas e aldeias por que passámos no caminho estavam fechados, mesmo durante o dia. Apenas nas povoações maiores se notava algum movimento.

E sim, ao fim de semana as coisas iriam melhorar. No fabuloso Convento do Desagravo, onde dormimos, iriam receber uma excursão de espanhóis que lhes ocuparia grande parte dos quartos. Já no magnífico restaurante Guarda Rios, espera-se que com o verão em pleno muito mais gente experimente a comida e a vista arrebatadora.

Espera-se. Ao fim de ano e meio de pandemia, a esperança continua a ser praticamente a única coisa que os empresários da restauração têm para se agarrar.

Os exemplos acima são apenas mais alguns a juntar aos muitos que têm sido recorrentemente mencionados em vários sítios (se ainda não o fez, por favor leia este editorial do Dinheiro Vivo de Joana Petiz, em que conta mais alguns dramáticos casos). Mas nada, nada do que aqui escrevemos poderá transmitir verdadeiramente o que passam aqueles que veem os seus negócios irem por água abaixo entre avanços e recuos que ninguém percebe bem na gestão da covid-19 neste país.

Agora entrámos em novo psicodrama com os números de Lisboa e Vale do Tejo. Entrámos, quer dizer... o governo entrou. Isto enquanto o Presidente diz que as coisas estão relativamente bem, o presidente da AR nos manda para Sevilha (que está muito pior do que nós!) e se fecha a Área Metropolitana de Lisboa pelo segundo fim de semana consecutivo.

Sim, porque nem é aqui que está a maioria do poder de compra do país, ou seja, não é aqui que está o maior potencial de "vá para fora cá dentro" que poderia ajudar um bocadinho, nestes dias de sol, quem tenta viver fora dos grandes centros!!

Mas aparentemente é tudo pacífico. As pessoas aceitam serenamente a decisão, como com serenidade aceitam que passemos a ter de mostrar passaporte para circular dentro do ​​​​​​nosso próprio país, via o Certificado Digital, qual estado de polícia.

Alguma destas coisas é constitucional? O bastonário dos advogados disse que não, mas terá sido o único. E a caravana passa. Em nome da nossa saúde.

Porque é também em nome da nossa saúde que se fazem ouvidos moucos aos muitos especialistas que dizem que os critérios que estão a ser usados já não fazem sentido, uma vez que não têm em conta as vacinas. Esses são os peritos "maus", aparentemente.

Deixemo-nos de coisas. Portugal joga domingo em Sevilha. Quem puder, dê lá um pulo, faça favor. É desígnio nacional, Ferro dixit outra vez hoje, em plena Assembleia da República.

Quem não puder, fique em casa, a ver pela TV. Sossegadito. Afinal, há muitos (mesmo muitos) anos que assim ficar tem sido o nosso desígnio. Aconteça o que acontecer neste país, mesmo quando a violação dos nossos direitos é flagrante, o povo é sempre sereno. E o resultado, esse, está à vista.

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