A revolução é um jogo de espelhos

Descobrir um filme como Prazer, Camaradas!, de José Filipe Costa, é uma experiência envolvente e didáctica. Através da revisitação do pós-25 de abril - e, mais especificamente, das memórias de jovens que vieram do estrangeiro para "ver e aprender" a revolução -, reencontramos uma questão tantas vezes mascarada. Ou seja: afinal, em termos cinematográficos, o que é isso de "fazer história"?

Há um insidioso lugar-comum em torno da expressão "filme histórico". Nele se cruzam duas noções simplistas que, por assim dizer, se alimentam uma da outra: a primeira proclama que "faz-se história", automaticamente, apenas e só porque se recua a factos de um passado mais ou menos distante; a segunda reduz o "fazer história" à banal recuperação de cenários e guarda-roupa da época que se retrata, colocando os actores a "repetir" aquilo que foi dito pelos protagonistas... históricos.

Sim, revisitar o passado. Sem dúvida, escolher os elementos materiais para figurar esse passado. Mas como? E à procura de quê? A história não é uma matéria inerte à espera que façamos a sua "transcrição". Em boa verdade, não é possível "reproduzir" o que quer que seja: fazer história não é "reconstituir" o passado, mas sim criar um acontecimento presente - para o nosso presente.

Há uma maneira rudimentar, porventura desagradável, de dizer tudo isto: retratar o 25 de abril não é o mesmo que vestir meia dúzia de intérpretes com fardas militares acabadas de passar a ferro, acumular umas linhas de diálogo em que os protagonistas denunciam a ditadura do Estado Novo e, por fim, amontoar algumas imagens de arquivo com a multidão a gritar "o povo unido jamais será vencido"...

Estou a caricaturar? Sim, "ma non troppo". Essa ideologia narrativa prevalece. Prova-o a escassez de filmes portugueses que arrisquem perguntar como lidar com a complexidade de uma memória histórica que não pode ser reduzida a uma colecção de marionetas mais ou menos "simbólicas". Um desses filmes, a meu ver admirável, é Gestos & Fragmentos (1983), de Alberto Seixas Santos, centrado no que aconteceu entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975. Não por acaso, nele se discute o cliché segundo a qual existe uma fronteira nítida entre "documentário" e "ficção".

Não quer isto dizer que Prazer, Camaradas! seja um "descendente" directo de Gestos & Fragmentos. Não é essa a questão. O que importa sublinhar é a invenção formal - e a alegria dessa invenção - que nos convoca para uma visão menos maniqueísta, mais disponível, das atribulações do nosso destino colectivo.

Não se trata de "imitar" aquilo que aconteceu ou terá acontecido. Para José Filipe Costa, como para qualquer autor consciente da peculiar dimensão histórica do olhar cinematográfico, tudo começa na definição do próprio sistema de conhecimento que o filme encarna. Nesta perspectiva, podemos evocar a herança pedagógica de Jean Rouch (1917-2004) que, nos tempos heróicos da Nova Vaga francesa, definiu o seu trabalho a partir de um realismo contaminado por uma assumida teatralidade - lembremos o caso modelar de A Pirâmide Humana (1961), em que a vida dos estudantes do liceu de Abidjan, pouco depois da independência da Costa do Marfim, surge apresentada (e representada) perante a câmara através de "encenações" protagonizadas pelos próprios estudantes.

Prazer, Camaradas! é também um filme elaborado a partir de um jogo de espelhos, desconcertante e fascinante: os protagonistas são actores da sua própria história, percorrendo o labirinto da memória, não através do saudosismo típico de todos os conformismos revolucionários (a contradição existe...), antes como quem resgata silêncios e fantasmas dessa memória. Além do mais, o facto de o poder masculino sobre as mulheres e a repressão sexual surgirem como temas transversais ajuda-nos a compreender que a sua pertinência não é exclusivo dos feminismos mediáticos dos últimos anos.

Em última instância, José Filipe Costa consegue filmar o mais esquivo dos objectos. A saber: o desejo. Entenda-se: o desejo de transformação das vidas humanas. Falta apenas dizer o que este texto tem estado a esquecer: Prazer, Camaradas! é uma comédia.

Jornalista

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