A revolução dos idiotas

À falta de melhor metáfora sobre a tragédia que se abateu sobre o Brasil na eleição presidencial de 2018, visualize-se uma sala de aula onde os piores alunos, em aproveitamento e comportamento, sequestram a professora e assumem o comando.

Na revolta, os idiotas começam por mudar os pontos da matéria, da matemática à sociologia, que não compreendem.

Se não andamos de cabeça para baixo, então a terra é plana; se os cientistas dizem que não há remédio além da máscara, arranjemos nós um, nem que seja mais indicado para gado bovino; se não entendemos todas as complexidades da História, reduzamo-la ao enredo de um filme do Chuck Norris; se os ladrões nos assustam, armemo-nos e matemo-los sem culpa; se não lemos livros, porque havemos de subsidiar a cultura?; se até temos um amigo negro, então o Brasil não é racista; se hoje estamos a respirar tão bem como ontem, não há razão para não derrubarmos uma floresta e construirmos um resort; se há risco de perdermos eleições, a culpa é do sistema de votação; se as contas de dividir são as mais difíceis, somemos, adicionemos, acumulemos; se mais dúvidas surgirem, apelemos a uma patriotada ou a Deus Nosso Senhor para as resolver.

Depois de mudados os pontos da matéria, o passo seguinte é propagá-los. Não pela imprensa tradicional, que nem sempre diz o que o mau aluno quer ouvir, mas pelo meme de WhatsApp, que nunca desilude, ainda para mais na era das legiões de imbecis (para ecoar o Umberto) proporcionadas pela internet.

Mas além da net, até a imprensa tradicional escorrega na casca de banana: em nome de um pluralismo torto, dá a um prémio Nobel e a um curioso de rede social o mesmo espaço para falar sobre os prós e os contras do Brexit, sobre o muro entre o México e os EUA, sobre a vacina e a hidroxicloroquina, como se num debate a propósito de, digamos, voo em velocidade, um falcão e um hipopótamo merecessem o mesmo tempo de antena.

Entretanto, o que distingue a revolta de 2018 no Brasil é que ela não foi protagonizada pelos excluídos - não são sans-culottes, como na revolução francesa, nem colonos, como na americana, nem o proletariado, como na russa. Não: os revoltosos são uma elite tropical ressentida.

Ressentida com as políticas dos governos de esquerda que, ao incluírem 40 milhões de ex-pobres na sociedade de consumo, lhes tiraram, por exemplo, a exclusividade no acesso a viagens ao estrangeiro.

"Ir a Nova Iorque já teve sua graça, mas, agora, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça?", perguntava-se a socialite (e eleitora de Bolsonaro) Danuza Leão, em coluna no jornal Folha de S. Paulo de 2012 (durante os tais governos de esquerda).

"Qual o problema de o dólar estar alto? Antes [durante os tais governos de esquerda] até a porteira já ia à Disneylândia, era uma festa danada! 'Pera aí! Vão às praias do Nordeste, está cheio de praia bonita lá, vão a Cachoeiro do Itapemirim, ver onde o Roberto Carlos nasceu...", ordenou no ano passado Paulo Guedes, atual ministro da Economia e outro obcecado por porteiros.

Além dos aeroportos, entretanto, o filho do porteiro passou a ter acesso às salas de aula das universidades, como tão bem é contado no icónico Que Horas Ela Volta, filme de Anna Muylaert. E, nalguns casos, a atirar os filhos da elite tropical ressentida para o estatuto de piores alunos, em comportamento e em aproveitamento, ameaçando, a prazo, o sistema de castas brasileiro em vigor desde 1500. Esse é o mote original desta revolução de idiotas.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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