A razão dos ingleses, a irresponsabilidade de Marcelo e a hipocrisia dos liberais

Os ingleses, disseram-nos as autoridades do nosso país, quiseram tramar-nos, inventando um problema de contágios com as variantes indiana e nepalesa e uma duplicação de novos casos em três semanas, retirando-nos da lista verde e fazendo regressar a casa dezenas de milhar de turistas britânicos. De tudo se disse sobre as reais intenções do governo de sua majestade, como tudo se esquece, quando se confirma que os ingleses tinham razão. Há um problema sério com a variante indiana que, segundo os especialistas, já vale quase metade dos novos casos em Portugal. Três em cada quatro na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Bem nos lembramos de ouvir o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Lacerda Sales, no início do mês, com uma dúzia de casos, pedir-nos "tranquilidade" e "serenidade", porque os casos estavam "bem isolados e bem circunscritos". Também bem sabemos que já há contaminação local e não apenas contágios importados. Mais grave ainda, não fizemos um rastreio eficaz e hoje não estamos preparados para enfrentar da melhor forma este novo perigo.

Estamos longe de ter os números de janeiro e da pressão sobre o sistema hospitalar, mas temos a situação a piorar e já aprendemos que isto não se resolve por milagre, mas apenas por mudanças no comportamento de todos nós. O milagre da vacina está muito longe de passar de sonho a realidade. O Reino Unido, que tanto elogiámos pela rapidez com que estava a vacinar, que tem mais de metade da população adulta já com as duas doses de vacina, teve na última semana cerca de sete mil novos casos diários.

Convém que o Presidente da República, especialista em soundbites, tenha noção que quando diz "comigo não vai haver volta atrás" no desconfinamento já ninguém ouve mais nada. É uma grande irresponsabilidade deixar que os portugueses se fixem nesta frase, porque já não ouvem o Presidente a chamar à atenção para a necessidade de cumprir as regras sanitárias. Até porque, neste momento, há concelhos que em risco de voltar para trás e aí ninguém pode acreditar no que Marcelo diz. Vejamos, por exemplo, a cidade de Lisboa, inserida na região mais castigada por esta nova fase crescente da pandemia, onde os comportamentos de risco não auguram nada de positivo e onde um partido político optou por engavetar o bom-senso. Outrora crítico de toda a manifestação política em tempo de pandemia, momento em que apontava as setas a "uma casta de portugueses privilegiados a quem tudo é permitido, uma elite com impunidade de grupo", o partido Iniciativa Liberal (IL) resolveu contribuir para lançar ainda mais confusão informativa, como se na capital fosse possível festejar os santos com arraiais montados.

Nos próximos dias, vamos ver os números continuarem a crescer em Lisboa e as imagens de liberais sem distância, nem máscara, no arraial exclusivo, ainda estarão na memória dos portugueses, fazendo com que toda a gente perceba que aquela foi uma provocação sem sentido. Não foi o arraial que nos trouxe até aqui, foi coisa pequena e a situação já se vinha a agravar. Tanto que desaconselhava a festa. O que ela nos trouxe como confirmação definitiva é que o IL já é há muito tempo como os outros partidos que diz combater: "Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço". Ter o Presidente alinhado com esta irresponsabilidade é que surpreende.

Jornalista

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