A propósito de velhos e novos projetos

A propósito de velhos e novos projetos, ou do antes e depois da pandemia, importa saber em que mundo Portugal quer estar.

Dos vários assuntos quentes do momento, um dos mais caros é seguramente o novo Aeroporto de Lisboa. Muito se tem falado da urgência de o construir, seja pelo atraso de 50 anos que leva a discussão, seja pela pressão que o forte volume de turistas e de empresários que nos visitam exerce sobre o Aeroporto Humberto Delgado. O volume de passageiros que passaram pela Portela em 2019 (31 milhões) é demasiado para a infraestrutura aeroportuária que serve Lisboa e o país. Os estudos indicam que, com mais investimento, este pode chegar aos 35 milhões de passageiros, mas esgotando-se aí. E isso significou, até agora, que precisamos de outro aeroporto.

Sabendo que vêm aí os milhões do Plano de Recuperação e Resiliência, importa ser ágil na decisão, mudar leis se preciso for e construir sem mais discussões o aeroporto do Montijo, alagando uns largos milhares de milhões de euros, destruindo a biodiversidade que tiver de ser destruída. Ou podemos escolher outro caminho...
O Plano de Recuperação e Resiliência tem três dimensões fundamentais: a resiliência do país, a transição climática e a transição digital.

Na transição digital, podemos antecipar que um sem-número de reuniões, convénios, congressos e similares irá passar para o digital, diminuindo as viagens em nome da ciência, da economia e dos negócios. O digital veio para ficar e, ainda que vá continuar a existir muita atividade presencial, algumas provavelmente acabaram de vez.

Na transição climática, a pandemia mostrou-nos como o clima mudou com a nossa quietude. Vamos continuar a viajar em lazer e em trabalho, mas as novas gerações estão empenhadas na redução dos combustíveis fósseis e veem o mundo por outro ângulo climático. São elas que obrigarão a uma transformação dos transportes, empurrando-os para soluções mais verdes.

Antes de falar da resiliência, uma nota: vamos atravessar uma crise financeira cuja grandeza ainda desconhecemos, com a inevitável desvalorização dos salários e a redução do poder de compra. Nos próximos anos vamos viajar menos, seja em turismo ou em trabalho.

Falando da resiliência, esta faz-se apostando na economia, com empresas sólidas, inovadoras e exportadoras de produtos diferenciados. Também aqui a transição digital pode ser uma das nossas mais-valias, tendo em conta o conhecimento instalado e a qualidade das soluções que são por nós construídas. Temos de estudar com a Europa que mobilidade queremos e que transportes iremos privilegiar para sermos mais verdes e menos dependentes de um combustível que importamos a países terceiros. Temos de medir o que faremos em ferrovia, com os milhares de milhões não aplicados na construção do novo aeroporto.

Temos de pensar o país com sabedoria, não para voltarmos às soluções que estavam pensadas antes da pandemia, mas para alcançarmos a estrada do futuro, com a força típica de um povo habituado a reinventar-se e que precisa de construir o mundo novo que conheceremos depois da pandemia. Não podemos pressionar velhos projetos que são do passado e que em nada beneficiam o futuro, que deve ser alicerçado com novos projetos.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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