A peste e o absurdo

"Acabo de receber um manuscrito enviado por Malraux, o autor é um jovem que vive em Argel. Vou ler-vos as primeiras linhas" − foi assim, numa tarde de Abril ou Maio de 1941, que Jean Paulhan apresentou O Estrangeiro ao exigente comité de leitura da editora Gallimard. Não foi necessário muito para que todos concordassem que o texto deveria ser publicado, naturellement, sem reservas ou dúvidas. André Malraux fizera comentários entusiásticos, e o romance fora também lido e saudado, ao que parece, por Roger Martin du Gard.

Gaston Gallimard não perdeu tempo a mandar o seu secretário levar o manuscrito ao tenente Gerhard Heller, oficial de serviço do Propaganda-Staffel, o organismo encarregado de dirigir a propaganda e de controlar a imprensa e a actividade editorial francesas durante a ocupação nazi. Na sua qualidade de censor, Heller dispunha de uma ampla margem de manobra e raramente os seus superiores se imiscuíam no trabalho que fazia, o qual se distinguiu não apenas pela tolerância em relação a autores como Albert Camus ou François Mauriac, mas também, e o que é mais notável, pelo apoio empenhado a que certas obras potencialmente subversivas vissem a luz do dia. Heller recebeu o manuscrito de O Estrangeiro durante a tarde e só parou de lê-lo às quatro da madrugada. Horas depois, ao princípio da manhã, telefonou eufórico à secretária de Gallimard, dizendo-lhe que o livro era um passo de gigante na literatura contemporânea e oferecendo os seus préstimos caso existissem resistências em publicá-lo, uma ajuda que se havia revelado preciosa noutras situações melindrosas, como a de Vol de Nuit, de Saint-Exupéry.

Camus recebeu a boa nova quando se encontrava em Orão, a convalescer de um violento ataque de tuberculose. De cama, praticamente sozinho, incapaz de gerir os aspectos práticos da vida, o escritor pouco soube do andamento dos trabalhos de edição. Reviu segundas provas, recebeu um adiantamento por conta dos direitos de autor de O Mito de Sísifo e de O Estrangeiro e este foi lançado, com uma ambiciosa tiragem de 4400 exemplares, a 15 de Junho de 1942. Pouco depois, no final de Julho, Malraux escrevia-lhe, informando-o, entusiasmado, de que vira o livro em grande destaque na montra de uma livraria da Côte d'Azur. Em meados de Outubro, com uma tiragem bastante menor de 2700 exemplares, seria publicado O Mito de Sísifo.

Por contingências da guerra, os volumes destinados ao autor extraviaram-se no caminho e Camus acabou por receber só um exemplar impresso do romance. Na altura, atormentado pela doença e mergulhado na leitura de Moby Dick, congeminava já a próxima obra, à qual, como na novela de Melville, pretendia associar um símbolo forte ou um leit-motiv interpelante: "Os sentimentos, as imagens, multiplicam a filosofia por dez", escreveu no seu diário. Uma cruel epidemia de tifo, que devastara a região de Tremecém em Abril de 1941, deu-lhe o motivo que buscava. "Peste ou aventura", anotou no diário, e, aos poucos, o essencial da narrativa foi-se fixando: uma cidade assolada pela peste, isolada do mundo por uma férrea quarentena, metáfora de uma época infectada pelo bacilo do nazismo. Mas, como refere Herbert Lottman na esmagadora biografia que dedicou ao escritor (e que descreve ao pormenor tudo o que aqui contamos), Camus escreveu logo a seguir no diário a expressão "peste libertadora", fazendo eco de uma comparação entre a peste e o teatro que Antonin Artaud propusera anos antes. Artaud defendia que as epidemias, ainda que catastróficas, tinham também efeitos benéficos e purgantes, algo que não andava longe daquilo que Montaigne dissera séculos atrás, quando classificara as guerras como "sangrias das repúblicas". Camus rejeitava por completo esta ideia de que guerra ou doença pudessem ter efeitos positivos ("moralidade da peste: não é útil para nada nem ninguém"). Descobrira, aliás, factos que adensavam no seu espírito o paralelismo entre epidemias e intolerância: em 1342, durante a Peste Negra, milhares de judeus tinham sido executados, sob suspeita de serem os transmissores da doença; e em 1482, quando a peste assolou de novo o sul de Espanha, a Inquisição voltou a perseguir judeus e a culpá-los pela calamidade.

É extraordinário que Albert Camus tenha escrito a sua obra sobre a peste em plena guerra e, mais ainda, quando se encontrava gravemente doente, com a morte à espreita. Numa manhã de finais de Janeiro de 1942, um violentíssimo ataque de tosse fá-lo cuspir sangue e deixa-o prostrado, quase inerte. Francine, a mulher, apressa-se a chamar o Dr. Henri Cohen, médico judeu amigo da família, vítima de outra peste, a dos decretos anti-semitas de Vichy, que o tinham impedido de exercer a sua profissão. O Dr. Cohen prescreve um regime espartano, privando Camus de uma das suas actividades favoritas, nadar no mar, e aconselha-o a passar uma temporada em França, longe da humidade sufocante da Argélia. Acompanhados de um certificado médico de urgência, Francine e Albert pedem um salvo-conduto para atravessar o Mediterrâneo, mas só em Agosto, ao fim de uma espera de meses, obtêm autorização para rumar a Marselha. Por razões de segurança, a viagem fazia-se pela costa de Espanha e, ao fim de um longo périplo, o casal instalou-se em Chambon-sur-Lignon, na região de Auvergne-Rhone-Alpes, uma terra que os próprios habitantes descreviam como "triste", mas onde os Camus conseguiram repousar e alimentar-se melhor do que na Argélia (onde muitos produtos, como carne, só chegavam, quando chegavam, através da França metropolitana). De 12 em 12 dias, Albert vai fazer inalações a Saint-Étienne e todos meses faz, de bicicleta, uma volta de 60 quilómetros pela montanha, algo que por certo teria horrorizado o cauteloso Dr. Cohen. Às noites, lê o Ulysses, de James Joyce (interessa-lhe menos a obra em si do que o facto de Joyce a ter concebido e escrito), e a Recherche, de Proust, que o deslumbra pela "constante vontade criadora" do autor e, sobretudo, pelo "esforço que ela exigiu a um doente". A ideia central do novo livro é agora clara: enquanto O Estrangeiro descrevia a nudez do homem perante o absurdo, A Peste lidava com o facto de todos os pontos de vista individuais se equivalerem entre si em face desse absurdo.

Passado o Verão, Francine teve de regressar à Argélia, em busca de trabalho. Albert fica só, no Outono, a contemplar a beauté rouge da Haute-Loire nessa época do ano. Resignado a uma lenta convalescença, deixa de beber vinho, fuma apenas quatro cigarros por dia, louva as virtudes da castidade, escrevendo no diário que "a sexualidade não leva a nada; não é imoral, mas é improdutiva". "A juventude foge-me, é isso que significa estar doente", anota em 7 de Novembro de 1942, dia em que os Aliados desencadeiam a Operação Torch no norte de África, interrompendo doravante todas as ligações entre França e a Argélia. Albert Camus vê-se impedido de regressar a casa e à mulher. Com o Inverno a aproximar-se, sem dinheiro e fontes de rendimento, enfrenta a solidão e a penúria com extraordinário estoicismo: "Continuo a navegar imóvel pelo país da indiferença."

Sabendo da sua situação desesperada, Paulhan e Malraux conseguem que a Gallimard lhe atribua uma mensalidade modesta, como adiantamento dos direitos do livro seguinte. Camus, que detesta a ideia de escrever para ganhar dinheiro, vê-se obrigado a aceitar. Escreve a Armand Guibert, poeta e editor que conhecera em Argel e que agora vivia em Lisboa, perguntando-lhe se se importava de servir de correio na correspondência com Francine. Guibert, que em Portugal descobrira a poesia de Pessoa, da qual será tradutor e introdutor em França, acede prontamente. Assim, será através da neutral Lisboa que Camus e a mulher trocam cartas durante meses, nas quais Francine lhe diz, entre o mais, que encontrara uma forma de fazer chegar a França parte do salário que ganhava como professora. Camus, contudo, só receberá o dinheiro após a Libertação.

A escrita de A Peste prosseguia, profundamente marcada pela situação em que se encontrava o autor, o qual confidencia a um amigo que o grande tema do romance será o da separação e do exílio impostos pela quarentena. Em meados de Janeiro de 1943, desloca-se a Paris, onde pretende consultar nas bibliotecas livros sobre pestes e epidemias. Começa a trabalhar na Gallimard, conhece Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir, frequenta os círculos literários da boémia e das fiestas, perde-se de amores por María Casares, uma jovem actriz espanhola, filha de um ministro da República que, como ele, vivia as agruras do exílio e a quem Camus convida para participar na representação de uma das suas peças, Le Malentendu. Na noite de 4 de Junho, numa fiesta organizada por Sartre e Beauvoir no apartamento onde vivera Juliette Drouet, a amante de Victor Hugo, Camus apresenta María aos amigos, os quais ignoravam que, nesse preciso instante, pára-quedistas americanos começavam a cair perto de Utah Beach, na Normandia.

Não muito depois, Camus falha por pouco o dia glorioso da libertação de Paris. Estava em Verdelot na companhia de Michel Gallimard e será este quem se apressa a regressar à capital, para assistirem e participarem no extermínio do que restava da epidemia nazi, a qual, não por acaso, desde sempre foi comparada a uma doença: peste brune, a "peste castanha", chamavam-lhe os franceses por causa da cor dos uniformes das SA. Em 2018, um ministro de Macron desencadeou um vendaval de críticas por ter chamado peste brune aos protestos dos gilets jaunes, mas a analogia tem razão de ser e, em O Eterno Retorno do Fascismo, um ensaio sobre os radicalismos contemporâneos, o filósofo Rob Riemen começa precisamente por aludir à obra de Camus sobre a pestilência de Orão. Em 1955, Roland Barthes contestara a ideia de que o livro tivesse alguma relação com a ascensão de Hitler e o III Reich, o que obrigou Albert Camus a dizer que o livro tinha várias leituras possíveis, uma das quais se baseava justamente na resistência europeia contra o nazismo, praga nunca nomeada na obra, mas cuja presença era tão óbvia e patente que todos os leitores a tinham percebido.

A Peste pertence ao "ciclo da revolta" da obra de Camus e o seu horizonte primordial, aquilo que a epidemia de Orão vem evidenciar, é o absurdo da condição humana. Perante ele, é quase secundário discutir se o livro é uma metáfora do flagelo nazi e se, nos nossos dias, marcados pelos extremismos e pela covid, faz sentido, ou não, falar de fascismo, pós-fascismo ou o que quer que seja. O absurdo que nos rodeia - e cada vez mais, com tendência crescente nos últimos anos - é tão flagrante e intenso que a forma como o nomeamos é quase secundária. Há dias, por exemplo, soube-se que Donald Trump foi ao ponto de sugerir que os seus concidadãos infectados pelo coronavírus fossem internados na prisão de Guantánamo, como criminosos de guerra. Saber se tal gesto é "fascista" ou outra coisa qualquer constitui um exercício fútil ante a dimensão do seu absurdo. E é contra o absurdo que nos devemos revoltar, agora e sempre, antes que a peste se infiltre na cidade e acabe por nos devorar a todos.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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