A nova Arca de Noé

Cansados da pandemia e tolhidos pelo confinamento, atiramos a cabeça às nuvens e sonhamos com a próxima viagem. É nesse espírito que a União Europeia acelera a criação de um "passaporte sanitário" para salvar a campanha de verão. Eufemismos à parte, o "certificado digital verde", como prefere chamar-lhe António Costa, visa facilitar a livre circulação no contexto da covid-19 e atestar se o seu portador foi vacinado, se tem anticorpos ou deu negativo em teste recente.

Se já dividíamos o mundo entre saudáveis e enfermos, o vírus que anda por aí acaba de criar um novo reino, o dos vacinados, território almejado para onde quase todos querem emigrar, fugindo à pandemia. Num futuro muito próximo, a vacina é o salvo-conduto obrigatório para embarcarmos nessa Arca de Noé que nos há de devolver o privilégio da viagem e as receitas do turismo.

Acontece que o acesso a esse passaporte é lento, complexo e gerador de desigualdades. Alguns tentam o golpe na fila, e há até quem não queira embarcar. Acresce que esse reino não se fará real até que a grande maioria adquira a nova "nacionalidade" entre os vacinados. E é preciso que todos estejam alinhados - imunidade de grupo - para sermos recebidos a bordo, na peregrinação.

Mais expostos e dependentes do turismo, os nossos parceiros do Sul reagem positivamente à ideia do passaporte sanitário. A norte, Suécia e Dinamarca já anunciaram os seus certificados de vacinação. E Estónia e Polónia já isentam de quarentena quem chega vacinado. Mais timoratos, porém, Alemanha e França consideram tal passo prematuro: porque ainda é escassa a população vacinada; porque não há estudos suficientes para comprovar que os vacinados não transmitem o vírus; e pela relutância de muitos quanto à discriminação que um tal salvo-conduto pode acarretar para quem não está imunizado, por não ter tido acesso à vacina ou por suspeitar dela. Mais mês, menos mês - a presidente Von der Leyen diz que a Comissão Europeia precisa no mínimo de três para resolver as questões técnicas -, o passaporte sanitário há de vingar.

A sociedade e a economia precisam de horizontes de esperança na retoma. E uma vez verificada a capacidade da vacina para travar as infeções, e que existe quantidade adequada de vacinados, é bem-vindo esse certificado verde que, de novo, nos há de franquear as portas à livre circulação. O futuro e a qualidade das nossas vidas estão suspensos na vacina. E a imunização tornou-se do mais profundo teste à nossa capacidade de cooperar, entre pessoas e entre Estados.

Em contraponto à ideia de rebanho, há quem prefira falar em "imunidade de colmeia", que melhor descreve o conceito de inteligência coletiva, interdependente, construída em cooperação, naquela que é porventura a maior experiência social dos tempos modernos. Haja saúde! E lembremo-nos de que, de todos os livros do mundo, as melhores histórias ainda são encontradas entre as páginas de um passaporte.


Jornalista

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