A não dimensão mediterrânica de Portugal

Portugal não é geograficamente um país mediterrânico, mas é-o, ou deverá sê-lo, geoestrategicamente. O primeiro olhar que Portugal deu para este Mare Clausum tinha como ponto de chegada Jerusalém, no contexto das cruzadas. Lisboa funcionou sempre como último ponto de apoio, antes da passagem do rochedo de Gibraltar, para os navios cruzados vindos do norte da Europa, nomeadamente de Inglaterra e França.

Um segundo olhar, já Portugal tinha uma dimensão atlântica, foi dado por um dos maiores estrategas de sangue luso, chamado Afonso de Albuquerque, que enquanto zelava pelos interesses portugueses no mar Vermelho, gizou um plano para abrir um canal que ligasse estas águas salgadas às doces do Nilo, para assim poupar em média seis meses de viagem entre Lisboa e a Índia. Logo, anteviu o futuro Suez fora de sitio, mas com as mesmas vantagens para o comércio e para os comerciantes. Canal de Suez que, por estes dias, está bloqueado pelo maior porta-contentores do mundo, o qual foi sensível a uma rajada de vento mais forte, ficando atravessado e encalhado nesta passagem, recentemente alargada pelo governo egípcio.

As opções coloniais portuguesas, os Açores e o cabo da Roca, deram a Portugal a dimensão atlântica que tem hoje. Normal, maximizámos o que tínhamos, deixando os outros, sobretudo a França e a Espanha, com costas atlânticas e mediterrânicas, dividirem o esforço e o investimento entre dois mares, enquanto nós nos "atirávamos para a frente".

Mais recentemente, fruto dos compromissos europeus e NATO, fomos obrigados a olhar para o Mediterrâneo enquanto exercício prático e de missão, no contexto da prevenção à migração que por via marítima tem jorrado do norte de África, bem como de ajuda e assistência aos inúmeros náufragos sempre subjacentes a estas rotas. Este sentido de missão deu um élan interessante à Marinha portuguesa, projectando-a para um palco próximo mas sempre invisível ou até mesmo negligenciado.

A prova deste alheamento mediterrânico foi-me dada a conhecer, uma vez mais, através de fenómeno sísmico que ao longo da semana tem sido tema de conversas de postigo, táxi e televisão também. Ou seja, 24 horas antes do pequeno abalo que se sentiu na região de Lisboa, outro de 6.0 na escala de Richter foi assinalado na cidade mediterrânica de Béjaia, na Argélia. Como não houve desgraça, nem uma notícia sobre tal facto nos telejornais nem uma correlação de fenómenos próximos, nada! Inclusivamente, um dos entrevistados num dos canais de TV, a propósito de Portugal ainda não estar preparado com equipamentos de alerta de tsunami, disse que não pensemos que se dá um tremor de terra na China e que só uma semana depois chega a Portugal e que teremos tempo para fazer aviso à tripulação!

Pois não, se quando o mesmo fenómeno se dá no país do qual dependemos em 50% do gás que consumimos e não noticiamos, como teremos tempo de avisar antecipadamente quando vem de tão longe?

Faz lembrar o tempo em que investíamos tudo para vender sapatos na Arábia Saudita e não olhávamos para o potencial mercado espanhol, por mero preconceito do "nem bom vento nem bom casamento"!

No Mediterrâneo/Magrebe somos todos primos e teremos de assumir e aceitar este novo paradigma que se impõe, pois só assim estaremos todos também disponíveis para leituras e preocupações mais holísticas e mais próximas de casa.

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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