A música no cérebro de Deus*

*Ou como a ciência e a arte se encontram na mais pura das criações humanas: usar a imaginação na busca da verdade.

Musica universalis. A música das esferas. A ideia de que no plano celestial, literalmente no céu, os corpos -- o sol, os planetas, etc. -- vibram e criam uma harmonia universal, uma orquestra tocando a perfeita composição universal.

A ideia vem da Antiguidade, pelo menos desde os pitagóricos, que viam nos cinco sólidos regulares (tetaedro, cubo, octaedro, dodecaedro e icosaedro) as formas que estariam na base do Universo.

Esta noção foi depois adotada por um jovem que, em parte revoltado com o mundo que o rodeava (afinal, o seu mestre e amante tinha sido assassinado pelo Estado), desenvolveu uma teoria ainda mais radical: tudo o que vemos e sentimos, tudo o que medimos e conseguimos percecionar são meras sombras do mundo perfeito que existe para lá do que os nossos sentidos são capazes de captar.

E, assim, Platão inventou -- literalmente -- um conceito que viria a marcar a civilização ocidental por mais de dois mil anos.

Mesmo quando finalmente a Europa começou a largar as trevas da Idade Média e voltou a dar passos na direção do pensamento livre e do debate de ideias -- que tão espetacularmente surgira na Grécia do séc. VI, em Mileto -- aquelas ideias continuaram profundamente enraizadas.

Johannes Kepler, o holandês que em 1619 descreveu com precisão a órbita dos planetas -- e as razões matemáticas das mesmas -- perdeu décadas da sua vida a tentar "encaixar" os sólidos pitagóricos nos dados das observações. Só que a realidade não é assim.

Até que, como disse Carl Sagan, em Cosmos, um dia Kepler teve a coragem de abdicar dessas ideias feitas e olhou para aquilo que os seus sentidos lhe davam: os factos. E chegou à verdade da natureza.

O livro em que escreveu as suas conclusões tem um título que não deixa de remeter para os platónicos que o desiludiram, mas seguramente não era nesses que Kepler estava a pensar: Harmonices Mundi. A Harmonia do Mundo. Música, outra vez.

É impossível olhar para o céu noturno, em especial longe da iluminação artificial das grandes cidades, e não ter uma sensação de deslumbramento e, ao mesmo tempo, de que cada luzinha que vemos está em concerto com tudo o mais, qual gigantesca orquestra.

Seria talvez essa a ideia de JRR Tolkien quando imaginou o seu mito da criação?

Em The Silmarillion, o autor do mundo imaginário mais consistente alguma vez concebido por uma só pessoa conta como o Deus criador Eru Ilúvatar, após imaginar os Ainur -- os primeiros seres do universo --, lhes ensina música. E é dessas tão belas canções que nasce toda a criação.

A Música dos Ainur chama-se, em Quenya (a língua criada por Tolkien), Ainulindalë. E todo o universo vive nesta canção.

A Ainulindalë de Tolkien, a sua musica universalis, é curiosamente reminiscente do que hoje nos dizem alguns físicos que procuram uma "teoria de tudo".

Um das mais completos (e complexos) modelos contemporâneos candidatos é a chamada Teoria das Cordas. Grosso modo, estipula que na origem dos elementos que compõem os átomos estão minúsculas "cordas" ou "laços" que vibram em diferentes frequências. É a diferente vibração (chamemos-lhe nota, para prosseguir com a metáfora musical) que faz com que um eletrão não seja um quark, por exemplo.

O maior problema desta teoria relativamente à realidade em que vivemos é que, para funcionar, implica que o universo tenha, pelo menos, dez dimensões.

(Vivemos num universo de três dimensões espaciais mais uma dimensão temporal. A Teoria das Cordas estipula que poderão existir pelo menos mais sete dimensões espaciais, mas estão tão "enroladas" sobre si próprias que não temos acesso a elas. Apenas as cordas, por serem minúsculas, podem por lá passsar, provocando assim efeitos mesuráveis nas três dimensões "desenroladas" em que vivemos.)

A Teoria das Cordas está longe de ser consensual, mas tem grandes defensores -- e ainda está para surgir uma teoria competitiva mais completa. O físico Michio Kaku, no recente e muito recomendável livro The God Equation: The Quest for a Theory of Everything, estabelece muito bons argumentos para que não a deitemos fora tão cedo. Aliás, muito pelo contrário, pode até encerrar uma boa parte da partiura do derradeiro concerto da ciência.

Outra especulação surgida recentemente sugere que a matéria não será sequer composta por partículas ou ondas (com possivelmente cordas na sua origem), mas sim por pequenos "fragmentos de energia"... E daí talvez não...

Fizemos aqui um caminho de dois mil anos, dos filósofos de Mileto às mais avançadas teorias físicas que o cérebro humano concegue conceber. Um percurso que aprendemos a fazer, armados com os nossos sentidos, com as ferramentas da nossa tecnologia e a imaginação que nos permite pensar o aparentemente impossível,

Tentamos ouvir a música que, achamos, Deus ouve na sua cabeça. Já temos um nome para ela: Tolkien batizou-a. Agora, a ciência está prestes a dar-lhe a partitura. Quando a aprendermos a tocar de cor, o mundo nunca mais será o mesmo. Nem Deus...

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