A melhor rádio do mundo

Há vários anos que oiço a RDP África. Sempre a vi como um projeto extraordinário. Quando deputado, presidindo à Comissão de Negócios Estrangeiros, apoiei como pude. Na minha observação empírica de cidadão e de ouvinte, creio que faz serviço público em triplo, mais que os outros, mas recebe muito menos, talvez apenas uma migalha. Admiro os seus profissionais e colaboradores, porque conseguem fazer uma rádio enorme todos os dias com pouquíssimos recursos, escassíssimos meios. Mostram dedicação.

Nos últimos anos, oiço-a todos os dias. Sou um fã. Esta rádio carrega consigo o feitiço de África, fabulosa magia - que é um recurso de alma, de energia e de química que, afinal, mais ninguém tem. Só não é o seu segredo, porque está à vista.

Quando no carro, frequentemente vou a ouvi-la. E brinco comigo mesmo, imaginando-me nas ruas de Luanda, muitos anos atrás da minha vida, a gingar com aquela música.

O risco para a RDP África é que fizesse do sortilégio africano um bocejo, uma chatice. Nada disso: apesar do pouco apoio que se vê ter, a RDP África consegue declinar os vários géneros de forma muito equilibrada e importante. Tem uma selecção musical geralmente muito boa, desde a "Música Sem Espinhas" à "Hora das Cigarras" (de José Eduardo Agualusa) e ao longo da emissão. É um abraço de relação permanente com o espaço africano da CPLP e com as comunidades africanas em Portugal, assim como com as suas diásporas no mundo.

O "Consultório Jurídico", semanal, é um espaço de muita qualidade e extrema utilidade, em que o Dr. Adriano Malalane responde a perguntas dos ouvintes e esclarece questões jurídicas práticas nas áreas da imigração, nacionalidade, trabalho, família ou outras que são colocadas. O "Hora dos Ouvintes", hoje com David Joschua (há tempos com Vasco Diniz), não tem novidade face a outros do género: programas de intervenção da opinião pública. Mas a matéria é única (geralmente, actualidade africana) e é fascinante ouvir cidadãos do país objecto do debate, ou de outros da lusofonia entrarem em antena a partir dos seus países ou de cidades onde estão emigrados, comentando com convicção e argúcia e ilustrando a pluralidade e liberdade da cidadania.

Aprendo sempre com o "Debate Africano", um formato clássico semanal, com intervenientes dos cinco PALOP: Adolfo Maria (Angola), Sheila Khan (Moçambique), Eduardo Fernandes (Guiné-Bissau), Abílio Neto (São Tomé e Príncipe) e José Luís Hopffer Almada (Cabo Verde) - um programa, salvo erro, criado e durante muito tempo dirigido por Jorge Gonçalves, hoje conduzido por João Pereira da Silva. Ao longo de todo o dia, os noticiários são preciosa fonte de informação sobre o que se passa em cada um dos países-irmãos em África. O mesmo se diga das revistas de imprensa matinais, que também entram em diálogo com as redações dos principais órgãos. E são verdadeiramente excepcionais as resenhas de notícias de política e economia que o jornalista José Gonçalves apresenta em pequenos espaços ao longo do dia, onde esclarece temas importantes da actualidade africana, não só lusófona. Se queremos saber, é na RDP África. Só sinto a falta das opiniões editoriais do jornalista Jorge Gonçalves, que, creio, entretanto se reformou.

A emissão é pontuada por jingles de promoção. Um há que me ficou no ouvido: diversas vozes africanas exaltam rapidamente vantagens da RDP África, terminando uma, creio que com sotaque da Guiné-Bissau, a elogiar "é a melhor rádio do mundo". É impossível não sorrir, não concordar com a frase, a voz, o tom de felicidade pura. Só ouvindo.

A RDP África bem merece ser condecorada no ano em que festeja 25 anos. É a melhor rádio de África para Portugal e a melhor rádio da lusofonia para o mundo. É única. Sou ouvinte fiel. E muito reconhecido, como português, por aquilo que fazem.


Advogado e ex-líder do CDS.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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