A manhã negra do Afeganistão

"É de manhã. Uma manhã mais negra que o anoitecer. Uma manhã com toda a decepção, uma manhã com um mundo de dor. (...) Ficamos sozinhos, indefesos, sem esperança, sem esperança."

Estas palavras foram escritas no Twitter por uma mulher afegã, nas primeiras horas de 16 de agosto. Tinha estado no aeroporto nessa noite, postou um vídeo do desespero e caos dos que - centenas, milhares - ali convergiram para tentar fugir, mas apagou-o. Há outros vídeos a circular: mostram pessoas - quase sempre homens, há muito poucas mulheres nas imagens - a correr de um lado para o outro, sons de tiros, gente agarrada a aviões que avançam na pista. Gente que cai de aviões em voo. A imagem dessa queda ecoa outras de há quase 20 anos, as de quem se lançou das torres gémeas para uma morte mais rápida e misericordiosa que a pelo fogo.

Bem podem os representantes dos talibãs garantir que vão governar de forma muito diferente desta vez - que, por exemplo, as mulheres poderão estudar e trabalhar, que "só" lhes impõem que "se cubram com o hijab" - e que haverá uma amnistia para todos os que colaboraram com o anterior poder, e os governantes ocidentais, como o ministro dos Negócios Estrangeiros português, alvitrar "vamos ver se as declarações são credíveis". Há quem, lá, prefira agarrar-se a um avião que descola a esperar para ver.

Nem era preciso, para justificar esse desespero, que nos últimos dias tivessem surgido relatos - não independentemente confirmados, parece -, atribuídos às zonas do país há mais tempo conquistadas pelos talibãs, de execuções/ homicídios, meninas maiores de 15 exigidas às famílias para desposarem os vitoriosos. Não esquecemos, e decerto os afegãos muito menos, como no auge do poder talibã as mulheres eram chicoteadas ou até mortas na rua por não estarem acompanhadas por homens ou não terem a indumentária correta; não esquecemos as execuções em estádios, os cortes de mão aos acusados de roubar, a lapidação das supostas adúlteras. Lembramo-nos bem, mesmo nós para quem, aqui no conforto da Europa, tudo isso é distopia e não uma possibilidade concreta de destino.

É certo que o pavor talibã não acabou com a ocupação estrangeira; que o grupo, depois da derrota em 2001, se foi reinstalando, reapropriando território e vidas: em 2011 foi noticiado que uma mulher e um homem com quem teria "fugido" foram mortos por lapidação na província de Kundus, com um então porta-voz talibã a justificar com "é a lei do Corão, toda a gente sabe"; em 2016 apareceu um vídeo da execução de uma mulher com um tiro na nuca por alegadamente ter assassinado o marido. Já este janeiro, duas das 250 juízas afegãs foram mortas a tiro em Cabul. São só exemplos do que nunca deixou de suceder.

Não há pois qualquer razão para acreditar no que dizem os talibãs - a não ser a vontade "diplomática" de desculpar esta saída precipitada e a decisão dos EUA de lhes entregar o poder. Porque foi exatamente isso que se passou: uma entrega incondicional do país, assinada por baixo, para variar, pela NATO, decidida e negociada por Trump (que advogava o abandono em maio), mantida por Biden e aplaudida pela Rússia e a China - a ex potência ocupante que tanto combate os insurgentes islâmicos chechenos, autores do pior ataque terrorista deste século no seu território (Beslen, 2004), e o país que persegue cruelmente a sua minoria muçulmana, ambos agora de tão boas relações com os radicais talibãs.

E qual seria a alternativa, perguntam quer os que defendem esta saída como os que acham que os EUA e a NATO nunca deveriam ter lá estado (convém lembrar que a invasão sucedeu no pós-11 de Setembro, porque o Afeganistão era a base da Al Qaeda, responsável pelo ataque). Não tenho resposta concreta a essa pergunta (se alguém tem). Mas sair a correr, com as calças na mão - para usar palavras semelhantes às de Mikhail Gorbachev quando disse que a URSS não podia abandonar o Afeganistão, que ocupou durante 10 anos (de 1979 a 1989), às três pancadas - não é decerto a opção correta.

Era preciso ter criado condições para que os que correm risco de vida imediato por terem colaborado com o governo deposto e com os ocupantes, as mulheres em situações de destaque, os alvos óbvios, pudessem sair antes de os talibãs tomarem o poder. Era preciso criar uma via rápida para o acesso ao estatuto de refugiado, certificar que havia tempo para as pessoas tratarem dos papéis - numa reportagem da CNN desta segunda-feira, a jornalista Clarissa Ward conta que havia nos últimos dias filas intermináveis de gente a tentar tratar do passaporte e pedir vistos. E garante que não há condições para criar um "corredor de segurança" para evacuação: "Há talibãs por toda a parte. A situação é desesperada. E não há plano nenhum para evacuar. As tropas americanas mal conseguem manter o aeroporto neste momento."

"Sozinhos, indefesos, sem esperança." A mulher que escreveu as palavras reproduzidas no início deste texto tem 35 anos e chama-se Sahraa Karimi. Não é uma ilustre desconhecida, não é uma das cerca de três milhões e meio de estudantes (mais de um terço do total de estudantes do país, de acordo com o Banco Mundial) que neste momento temem ter de abandonar a escola, não é uma das afegãs que, fechadas em casa, assistem ao seu pior pesadelo; é cineasta e diretora do Instituto de Cinema Afegão. O seu ofício era proibido no regime talibã, por herético - como a TV e a música.

A sua última mensagem no Twitter, na noite de segunda-feira, é um comunicado a dizer que não abandona o seu posto mas vai tirar "uns dias de folga". Antes tinha enviado uma carta aos media a manifestar a sua incompreensão e dor com "o silêncio do mundo".

Não é, na verdade, que o mundo esteja silencioso; há muita gente a manifestar a sua angústia e fúria com o que está a acontecer; correm petições, cartas, declarações. protestos, impotências. É a força dos que podem salvar que falta - porque há momentos em que precisamos dela. E, por vezes, das armas. Precisamos às vezes daquilo que rejeitamos por princípio - e as armas não podiam ter saído assim do Afeganistão.

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