A má moeda das redes sociais

Na fase final do Governo Santana Lopes, um artigo de Cavaco Silva popularizou a Lei de Gresham, segundo a qual a má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda. A má moeda, entenda-se, seria então Santana Lopes e o seu mau Governo.

Esta teoria, que Cavaco aplicou à política, aplica-se que nem uma luva à informação nas redes sociais.

O modelo de negócio das redes sociais assenta na captação da nossa atenção, vendida aos anunciantes - nós não somos o cliente, mas o produto -, pelo que procuram manter-nos ligados o máximo de tempo possível. Tal implica apresentarem conteúdos que nos estimulem a não desligar, a ver mais uma publicação, um vídeo, um anúncio...

Acontece que, sendo da natureza humana que a nossa atenção seja mais atraída para aquilo que gera sentimentos fortes, uma notícia que apresente um acontecimento como um escândalo torna-se invariavelmente mais interessante do que outra que se limite a descrever e contextualizar o mesmo acontecimento.

Acresce que neste admirável mundo novo das redes sociais não existe a mediação de jornalistas ou outros profissionais, pelo que tudo pode ser publicado, mesmo que seja falso. E como as notícias falsas juntam a novidade ao escândalo, unem os ingredientes que garantem o interesse da audiência, assegurando também a sua maior divulgação (em 2018, investigadores do MIT apuraram que as notícias falsas são disseminadas seis vezes mais depressa do que as verdadeiras).

Se as notícias falsas circulam mais e prendem mais a atenção das pessoas, então são também favorecidas pelos algoritmos, o que exponencia a sua circulação. E, como acontece com a má moeda, tendem a expulsar as verdadeiras, que não atingem o mesmo nível de circulação.
Para quem acredite numa mão invisível que regula os mercados, está tudo bem. Para quem acredita na democracia, não é aceitável.

É por isso imprescindível discutir a regulação das redes sociais, pois as notícias falsas propagam uma visão distorcida da realidade, que corrói a democracia e tende a promover comportamentos perigosos (não vacinação, violência, etc.).

Perante a gravidade dos acontecimentos que se seguiram às eleições americanas, algumas empresas privadas decidiram banir (temporariamente) Trump das suas redes. Para muitos, essa decisão chegou tarde, o mal estava feito. Para outros, as empresas ultrapassaram um limite que não lhes competia, o da censura.

É um debate difícil, pois estão em confronto diferentes direitos fundamentais. Mas é, por isso, uma discussão que tem de ir mais longe. Antes de mais, porque os critérios de regulação não podem ser deixados ao arbítrio de empresas privadas e dos seus interesses comerciais. Cabe às instituições democráticas, enquanto representantes dos cidadãos, a responsabilidade de regular o exercício dos direitos em confronto.

A política pública não pode alhear-se das suas responsabilidades. Há um problema, é preciso enfrentá-lo. E regulá-lo.

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Eurodeputado

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