A luz do fogo

Têm-se interrogado muito os senhores leitores, e bem, sobre que relação existirá entre o orgasmo feminino e os telemóveis. A resposta é uma e só uma: Hedy Lamarr, austro-húngara que foi das estrelas mais cintilantes da história do cinema, mulher audaz seis vezes casada, que em 1933 protagonizou em Êxtase, drama erótico do checo Gustav Machatý, a primeira cena de um clímax na tela. Ainda hoje digna de ver, à época foi lapidada por intervenção directa do Papa Pio XI junto do L'Osservatore Romano, a que se seguiram dezenas de condenações, com a Catholic Legion of Decency dos EUA à cabeça, o que fez que a fita fosse banida em diversos lugares e, noutros, sujeita a drásticos cortes, como sucedeu na Alemanha nazi, onde o incómodo maior não resultou da exibição do êxtase carnal da actriz, mas do facto de esta ter ascendência judaica. Mais tarde, um dos maridos de Hedy gastou mais de 300 mil dólares a comprar cópias do filme para as destruir, mas não impediu que algumas delas se salvassem, encontrando-se hoje, claro está, facilmente disponíveis por essa internet fora.

O que menos se sabe - e é importante, até para desfazer mitos que em relação às mulheres dissociam a inteligência e a beleza - é que, além de actriz linda, Hedy Lamarr, uma completa autodidacta, dedicava-se nas horas vagas a fazer experiências e a inventar coisas, entre elas um semáforo luminoso para o trânsito, pastilhas carbonatadas tipo Alka-Seltzer, formas mais aerodinâmicas para os aviões de Howard Hughes, seu amante na altura, e, sobretudo, um dispositivo que visava proteger os torpedos dos Aliados, controlados por rádio, do empastelamento das comunicações feito pelo inimigo nazi. Na altura, a Marinha dos EUA não se mostrou receptiva a acolher invenções feitas por civis, mas o engenho de Lamarr - e do compositor George Antheil - seria adoptado nos navios da armada americana após a crise dos mísseis de Cuba e faz hoje parte da tecnologia Bluetooth e de muitas versões de Wi-Fi.

− É assim que quero viver - disse ela, em êxtase, a ver na tela o êxtase da actriz cintilante. Naquela noite, era a única mulher no cinema, rodeada de rapazolas boçais que faziam burburinho tremendo ante a nudez de Hedy Lamarr, precursora dos smartphones. A exibição foi interrompida, a sala quase veio abaixo, ela permaneceu estática, indiferente às carícias e aos avanços do companheiro dessa noite e ao ruído alarve que os cercava. Tinha então 18 anos, por aí, vivia há tempos no Rio, e aquele filme erótico, o primeiro não pornográfico a retratar uma relação sexual e um orgasmo feminino, teve nela o efeito de epifania. Viu-o dezenas de vezes, a maioria delas sozinha, em contemplação fervorosa.

Nascera em 1917, no dia 21 de Fevereiro (por sinal, segunda-feira de Carnaval), em Cachoeiro de Itapemirim, estado do Espírito Santo, terra natal de Roberto Carlos e Rubem Braga. Dora Vivacqua, assim se chamava ela, contaria mais tarde diversas versões sobre a sua infância, todas inverídicas. Disse ter sido abandonada em criança junto a uma caravana de zíngaros e adoptada por um casal de anões que não podiam ter filhos e a criaram com todo o amor. Noutra ocasião, afirmou ter fugido dos pais em criança para acompanhar um circo ambulante, onde se enamorou do domador das feras, que a iniciou na arte de lidar com serpentes letais. Contaria ainda que fora criada numa aldeia minúscula da ilha sagrada de Marajó, na foz do Amazonas, adormecendo todas as noites envolta em jararacas e muçuranas. A realidade mostrava-se mais prosaica: os Vivacqua eram uma família abastada de ascendência italiana que começava a despontar na política de Belo Horizonte, jovem capital de Minas Gerais. Dora era a décima quinta filha de Etelvina Vieira Souza Monteiro (que se jactava de descender de famílias aristocráticas de tempos imperiais e do próprio padre António Vieira) e de José António Vivacqua, com raízes em Castellucio Superiore, na paupérrima Basilicata. Em 1920, a família mudou-se para Belo Horizonte, onde organizava um concorrido salão literário em que, segundo se diz, participou um jovem aspirante a poeta, Carlos Drummond de Andrade. O pai seria brutalmente assassinado a tiro, em Agosto de 1932, por um bando de homens que tentavam invadir as suas terras e Dora, então com 15 anos, já na época causava escândalo pela sua contestação às ordens dos adultos e, sobretudo, pelos trajes reduzidos com que passeava pela praia de Marataízes ou se apresentava nos festejos carnavalescos. Começaram aí os seus mortais conflitos, nunca sarados, com um dos irmãos, Atílio, eleito deputado constituinte, o qual intuiu, e bem, que a ousadia da mana rebelde iria ser usada pelos seus rivais políticos para o denegrir.

Dora viveu esses anos entre Cachoeiro e Belo Horizonte, com fugas episódicas para o Rio de Janeiro, mas muito do que se diz sobre a sua juventude - que se tornou bacharel em Ciências e Letras, esteve reclusa num colégio de freiras de Botafogo, foi internada no hospício do Instituto Raul Soares, em Minas Gerais, tirou o brevê e começou a praticar pára-quedismo graças à intercessão de Fernando de Sousa Costa, ministro da Agricultura - está situado na ténue fronteira entre fantasia e realidade, como sempre ocorrerá, aliás, ao longo da sua vertiginosa vida, recentemente narrada pelo escritor espanhol Javier Montes em Luz del Fuego (Anagrama, 2020).

Luz del Fuego foi o nome artístico com que irrompeu na noite carioca, em espectáculos onde se apresentava integralmente nua, coberta por cobras gigantescas, mais amestradas do que ela própria. Acumulou dezenas de amantes, muitos influentes e poderosos, e nunca escondeu que era uma voraz adepta do amor livre, avessa a compromissos e casamentos, dizendo-se que só pôde manter tanto tempo um comportamento tão transgressivo e escandaloso por ter protecção complacente dos políticos e homens de elite que levava para a cama. Quanto ao nome, há versões que sustentam que começou por usar Luz Divina num espectáculo de circo, por sugestão de um palhaço chamado Cascudo, mas a informação mais credível é que se estreou no teatro de revista, em Agosto de 1944, com shows de títulos expressivos como Tentação de Eva, Lenda da Cobra Grande, Baile de Cleópatra ou Macumba para Prender Um Amor, e já com o epíteto de Luz del Fuego, extraído, segundo parece, da marca de batom trazida da Argentina por Carmen Miranda, o seu grande ídolo, que nunca chegou a conhecer, ao contrário de outra diva, a voluptuosa dançarina Eros Volúsia, capa da Life, estrela da comédia Rio Rita, com a dupla Abbott & Costello, que terá ensinado Dora a bailar e a apresentar-se em palco.

Em 1942, Luz del Fuego publicou o seu primeiro livro, Trágico Black-Out (título inspirado nos "apagões" no Rio durante a II Guerra), um romance noir cheio de mensagens cifradas sobre as suas aventuras amorosas e parceiros sexuais, de que o irmão Atílio, à época já senador e com ambições presidenciais, tentou comprar todos os exemplares, para os destruir, exactamente como fizera um dos maridos de Hedy Lamarr com o filme Êxtase. Dois anos depois, saiu A Verdade Nua, narrativa autobiográfica em ajuste de contas com a família e todos os que a tentavam censurar e silenciar. Por todo o país, Luz del Fuego viu espectáculos cancelados por pressão de ligas católicas, de bispos e padres influentes, de políticos em busca de votos. Foi detida diversas vezes, obrigada pelo Ministério Público a realizar exames psiquiátricos com vista a eventual internamento num manicómio. A tudo ela resistiu, com êxito: foi convidada a fazer um espectáculo para o rei Faruk, do Egipto, contratada para ir aos EUA, a Life descreveu-a como uma das vedetas mais populares do Brasil, participou em comédias patetas, encheu salas e salas de homens sedentos de ver a sua nudez e as suas cobras, ofuscou a rainha Soraya num baile carnavalesco do Rio. Luz del Fuego, note-se, não temia exibir-se em nu integral, nos palcos e fora deles, numa época em que às mulheres não era permitido mostrar sequer o umbigo nas praias e os cabos-de-mar prendiam as que ousassem envergar biquínis.

A ideia de utilizar serpentes nos espectáculos, sua eterna imagem de marca, tem óbvias inspirações em Eva e noutras representações femininas, e parece natural num país rico em ofídios de várias espécies, conhecido pelos serpentários, onde se fabricam essenciais antídotos para mordeduras venenosas. Na juventude, Dora descobriu com fascínio as cobras da Fundação Ezequiel Dias, de Belo Horizonte, e mais tarde será visita assídua e benemérita do Instituto Vital Brazil, de Niterói. Foi mordida em palco várias vezes, algumas das quais com gravidade, mas nunca abandonou as suas queridas serpentes que, para horror dos vizinhos, andavam à solta no apartamento de Copacabana.

Acossada por muitos lados, Luz del Fuego descobriu o naturismo e o vegetarianismo e fundou em 1949 o Partido Naturista Brasileiro, com o lema "Menos roupa e mais pão!", mas não teve êxito nesta efémera, mas muito estridente, carreira política. No início dos anos 1950, obteve, vá lá saber-se por que artes, autorização do ministro da Marinha para se instalar na ilha Tapuama de Dentro, baía da Guanabara, que rebaptizou ilha do Sol. Aí fundou a primeira colónia naturista da América Latina, visitada por estrelas como Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Glenn Ford, Brigitte Bardot e Steve McQueen (diz-se que este acordou uma manhã aos gritos, rodeado pelas serpentes da anfitriã).

Como em tudo o que sucedeu na vida desta mulher poderosa, há versões contraditórias sobre os seus últimos anos. Para uns, Luz del Fuego foi tremendamente feliz ali, ao sol da sua ilha, a comer frutos e marisco, a tomar longos banhos de mar; segundo outros, sofreu amargamente o declínio da popularidade e da forma física, viveu angustiada por
dívidas, a solicitar sem sucesso o apoio das federações naturistas da América e da Alemanha (esta, ainda assim, convidou-a a vir à Europa para o concurso Mais Bela Nua do Mundo). Em Outubro de 1965, Luz del Fuego queixou-se às autoridades que dois pescadores mal afamados, Alfredo Teixeira Dias e Mozart Gaguinho, a tinham tentado assaltar e violar na ilha do Sol. Dois anos depois, os malfeitores vingaram-se: desembarcaram na ilha, roubaram e assassinaram Luz del Fuego e o seu caseiro, lançaram os corpos ao mar depois de lhes retirarem as vísceras, para que não regressassem à superfície. Semidestruído, o barco de Luz del Fuego andou à deriva vários dias pela baía da Guanabara, com muitos a pensar tratar-se de mais um golpe publicitário da artista em declínio. Dois dos seus amantes foram detidos por suspeita de homicídio, mas a polícia conseguiu prender os verdadeiros autores do crime. Depois de autopsiada, Luz del Fuego, a Noivinha do Brasil, seria enterrada no Cemitério de São João Baptista do Rio de Janeiro, a 3 de Agosto de 1967, na presença de escassos amigos, um dos quais pagou o funeral do caseiro para evitar que fosse para a vala comum.

Em homenagem a ela, foi criada uma orquídea com o nome Brassolaeliocattleya Luz del Fuego, extremamente rara, talvez a mais rara do mundo, de que existe só um exemplar numa estufa ultraprotegida em Blumenau, estado de Santa Catarina, acessível apenas a meia dúzia de botânicos afortunados. É, sem dúvida, a ilustração mais perfeita de uma vida também rara, singularíssima, feita de uma invulgar coragem, a de ser mulher.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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