A intervenção na crise mundial

A Revolução Portuguesa de 1974 não impediu que essa nossa notoriedade fosse assumida pelos novos representantes do país na estrutura jurídica e política que os caracterizava e que teve expressão rápida na presidência assumida na Assembleia Geral, a presidência do Conselho de Segurança, e em departamentos históricos, em que é de reconhecer o brilho do atual secretário-geral, o português António Guterres. O conceito com que ele caracteriza o risco de a ONU estar a ser empurrada para o "pântano" tem o respeito profissional que lhe é concedido pelos responsáveis internacionais.

Mas hoje, quando a crise mundial dá relevo ao que é chamado movimentos populistas, parece de reconhecer que a intervenção atual do Papa Francisco, quando a voz da história agrava responsabilidades inquietantes, ele assumiu o movimento de Assis, que teve na origem a iniciativa notável do Papa João Paulo II, movimento em que o número das mais povoadas reuniões incluiu a voz portuguesa de Mário Soares que em tempos referi, movimento esse do qual se pode esperar que contribua pelo pluralismo das religiões para que mudem a fé dos também inquietantes casos de evidência contra a ética. Não foi apenas a intervenção de frei Bartolomeu dos Mártires em Trento que terá exigido a reforma interventora de hierarquias e que, passados tantos anos foi elevado aos altares pelo atual Papa.

É por isso que me ocorre contribuirmos para a movimentação do projeto de Assis que procura apagar os conflitos mortais entre seguidores de comunidades diferenciadas pela solidariedade religiosa. Esta corajosa intervenção destinada a repor em vigor o projeto do Papa João Paulo II não implica assumir o exemplo do Holocausto de Santidade de Mahatma Gandhi e Mandela, mas que repunha o espírito da articulação pacífica internacional que tiveram homens como Marshall, Robert Schuman, Alcide de Gasperi. Nenhum dos atuais interventores na política mundial pode legitimamente ficar com a lastimação memorial de Jean Monnet que afirmou que devia ter começado pela cultura para unir a Europa e não pela economia, uma intervenção que o movimento de Assis contou com a voz de um português.

A reunião convocada pelo Papa, realizada em frente do Coliseu de Roma, restituiu vida ao movimento de Assis, com o tema "Povos irmãos, terra futura, religiões e cultura em diálogo". O que recorda é o conceito algures atribuído a Camões, quanto ao êxito: "Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades", como diriam Dante e Cervantes para os seus países. Não parece que seja uma esperança inteiramente assumida por este espírito sobre o futuro do globo, da antiga posição de França, e talvez de todos os povos responsáveis pela chamada "ocidentalização do mundo", quando, estudando l'état du monde, que Badie e Vidal organizaram para 2022, concluindo que a mundialização é um défice enorme, sobretudo na medida da atual crise, que atinge todas as populações do globo, incluindo as definições jurídicas e de "direito humano de justiça", diplomas a exigir uma redefinição paralela, se a vitória sobre o conflito entre ambas, acrescido pela guerra independente da covid-19 que ainda, embora combatida, não conseguiu a articulação unitária de todos os poderes políticos.

Não é difícil pensar no facto de o Papa Francisco poder ser dispensado de assumir também estas sábias críticas de responsabilidade universitária. A conclusão que parece mais importante na atenção dos investigadores é pensar no mundo inteiro, aceitar que o risco não é apenas a questão do "poder no Pacífico".

Há sem dúvida também um problema europeu porque à Europa não faltam limitações que fazem sempre lembrar as consequências do Brexit, que pode lembrar a esquecida contrariedade da adesão britânica pelo responsável pela Cruz de Lorena, porque mais do que um país, mesmo sem qualquer Cruz, é hoje possível ser atingido por movimentos no poder, ou populares, que assumem o amor à soberania independente das obrigações e deveres, mas tem de reconhecer-se que é diferente o conjunto de desafios globais, que se multiplicaram, e exigem a nova redefinição do que foram as esperanças do fim da Guerra de 1939-45.

É esta também a atitude do Papa quando, assumindo a intervenção do Papa João Paulo II, anunciando, com lágrimas, a ressurreição da Missão de Assis que veio articular-se com mais uma voz portuguesa pregadora do risco do pântano da ONU que é a missão respeitada de António Guterres. Também ele nos obriga ao encontro da intervenção organizada pela Comunidade de Santo Egídio: o sofrimento dos outros não nos fez evitar a responsabilidade, temos de aceitar, sem indiferença, não pertencemos a uma comunidade isolada, "precisamos de conseguir a compaixão que fez as religiões desmilitarizar o coração dos homens, erradique menos guerra e mais comida; menos hipocrisia e mais transparência". No fundo a necessidade de sermos voz dos que não têm voz, adesão ganha por força da exortação.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG