A honra de Marcelo e a birra do morto

Pela segunda vez, Marcelo jura hoje, pela sua honra, desempenhar fielmente as funções em que é investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa. É este o caderno de encargos que lhe encomendamos. Nem mais, nem menos, e não é pouco.

Os portugueses querem sair deste ano de vida dilacerada para um horizonte de esperança e sonho. E é inconcebível que, no 50.º aniversário de Abril (em 2024), se possa dizer que não somos mais livres, mais justos e solidários do que no início da caminhada. Agora, o mais urgente, a emergência, é o combate à pandemia. Mas é preciso recuperar emprego, rendimentos e crescimento, com olhos no futuro: eis Marcelo na primeira pessoa, como se o discurso da sua segunda vitória, há 42 dias, fosse o guião para os 1825 que tem pela frente - uma empreitada inquietante para que nos convoca a todos.

Um presidente não governa. O exercício das suas funções é, não apenas, mas muito, o uso da palavra. Com os mesmos poderes constitucionais já conhecemos rostos e intérpretes tão diferentes como Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco... - já lá vou. Mas Marcelo sabe, como ninguém, usar o direito e temperar a palavra. Por isso, arrisca prometer mais e melhor - em proximidade, convergência, estabilidade, exigência. E, não por acaso, anunciou já a criação de uma equipa para reforçar vigilância aos milhares de milhões que hão de chegar de Bruxelas, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência.

De Cavaco, que Marcelo já nos tinha feito esquecer, soam ainda ecos de fundo, como se da plateia assistíssemos ao Fantasma da Ópera. Ou, melhor, com todo o respeito, àquela peça com meia centena de anos em que Vicente Sanches, nosso maior dramaturgo vivo, nos convoca para um velório, cheiro a velas ardentes e defumadouros, caixão ao centro. É uma farsa trágica cuja personagem principal é um morto que recusa o enterro, desprezando os argumentos que lhe apresentam as personagens de primeira linha (o médico, a viúva, o agente funerário), que já tinham organizado a vidinha contando com a sua morte. Ao fechar do pano, o teimoso defunto é fechado à força no caixão, para que se realizem as cerimónias fúnebres. O segredo, guardado para o fim, está em saber qual é a maior birra: se a do morto que não quer ser enterrado, se a de quantos à volta lhe atiram pazadas em cima.

Teatro à parte, a história recente demonstra que o vírus ignora calculismos políticos e que uma democracia madura não tolera ressabiamentos, antes reclama uma oposição forte, capaz de acenar com futuro, alternativas e esperança. Se em política o que parece é, as profecias de Cavaco, na antevéspera da posse de um seu sucessor, não primam pela elegância e não favorecem a procura de convergências que o nosso tempo reclama.

Hoje é o primeiro de mil e tantos inquietantes dias para um Presidente que quer ser de todos e ir a todas. Entre muros e crispações, Marcelo é a oportunidade da ponte, inspirador moderno e próximo dos cidadãos, comprometido com a necessidade de dar um contributo positivo, aproximar correntes, cicatrizar feridas e promover convergências.

Marcelo jura hoje por sua honra. Honra lhe seja!


Jornalista

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