A história mais aborrecida do mundo

Porque é que não há mais escritores sérios a escrever sobre a chuva e o calor?" é uma pergunta para qual talvez nunca tenha havido hora certa, mas 2016 foi uma data especialmente mal escolhida. Foi nesse ano que Amitav Ghosh publicou The Great Derrangement, cuja tese central (ou pelo menos mais superficialmente resumível) é que a ficção literária tem mostrado uma notável relutância em abordar o tema das alterações climáticas. Foi também por volta dessa altura que a enxurrada de romances sobre alterações climáticas se tornou tão torrencial que o jornalismo cultural foi obrigado a inventar uma classificação nova (uma das suas actividades preferidas): climate fiction, ou cli-fi.

Como sucede com qualquer narrativa de síntese cultural artilhada por conveniência, Ghosh teve de se dedicar a muita arrumação selectiva para se safar com aquela intrigante asserção - muitas redefinições táctivas, muitas supressões estratégicas. A principal foi a redução da sua categoria operacional ao mainstream literário e a consequente exclusão de todos os géneros especulativos, uma manobra que tem a vantagem de confirmar tautologicamente aquilo que quer confirmar. Primeiro define-se a "ficção literária" como ficção exclusivamente preocupada com o quotidiano, depois lamenta-se a sua incapacidade em especular sobre o futuro: logo, qualquer ficção que imagine especulativamente o futuro não pertence à categoria. Xeque-mate.

A ideia que fica é a de um queixume sobre as limitações intrínsecas da sub-categoria mais restrita do naturalismo burguês contemporâneo que acaba por aceitar muitos dos seus pressupostos: é como se, para satisfazer a exigência de Ghosh, bastassem quatro, ou cinco, ou dez romances anuais nos quais o protagonista - um professor de Literatura de meia-idade a viver em Nova Iorque - passasse 280 páginas a reflectir em discurso indirecto livre sobre as calotas polares em vez de sobre o adultério. Tratando-se de um tema sobre o qual se parece achar que a manifestação individual de ansiedade constitui uma resposta política viável, talvez não seja estranho haver quem acredite que também constitui uma resposta estética relevante.

A verdade é que várias modalidades de ficção especulativa andam há pelo menos cinco décadas a fazer aquilo que Ghosh acusa a ficção contemporânea de não fazer: extrapolar possibilidades futuras a partir das condições do presente. Muitos desses exercícios tendem para a distopia, ou mesmo para o desastre total e irreversível, mas até aí há excepções. Kim Stanley Robinson, que se popularizou na ficção científica com uma trilogia sobre as várias ramificações - ecológicas, económicas, políticas e culturais - da terraformação de Marte, passou grande parte da última década e meia a imaginar cenários em que as alterações climáticas ficam, por mérito colectivo, aquém do pesadelo.

A sua obra mais recente, The Ministry for the Future, é o tipo de romance ao qual se atrela invariavelmente um adjectivo oficial assim que sai do prelo ( um romance "importante"), mas em tema e execução não se afasta muito da trilogia Science in the Capital (os três volumes foram publicados entre 2004 e 2007) nem de New York 2140 (publicado em 2018): todos postulam futuros próximos em que as coisas mudam para pior, todos são hinos à imaginação tecnocrata, todos são repositórios de informação rigorosamente pesquisada, todos são esqueletos narrativos de filme-catástrofe aos quais todo o entretenimento foi subtraído, e todos foram escritos por alguém que, entre vários defeitos e virtudes, tem uma característica dominante rara em qualquer tipo de ficção - a absoluta ausência de medo do ridículo.

The Ministry for the Future começa com o seu capítulo mais convencional, mais sólido, e mais enganador: trinta páginas narradas na terceira pessoa que descrevem uma onda de calor no norte da Índia que vitima vinte milhões de pessoas. O capítulo é enganador apenas porque o registo usado e o impacto emocional que provoca praticamente não se repetem no resto do livro, que reverte para território mais familiar na obra de Robinson. Pouquíssimos escritores terão obrigado o leitor a passar tanto tempo numa sala de reuniões: como em livros anteriores, muita da acção não é dramatizada, mas relatada - em comissões, em conferências, em conversas de corredor no intervalo de conferências, etc. Várias personagens (ou melhor, vários detentores de cargos relevantes) discutem várias possibilidades e as consequências exactas de cada uma. Adicionalmente, há capítulos que recolhem uma espécie de história oral da catástrofe, com depoimentos anónimos inventados, há capítulos que consistem em listas de empresas que estão a fazer "um bom trabalho", há um capítulo que começa com a frase "Os impostos são interessantes". Outros são apresentados na forma de diálogos socráticos para explicar conceitos (desde créditos de carbono a projectos de geo-engenharia), ou então de adivinhas do género "o que sou eu?", cuja solução é apresentada no final, com resultados invariavelmente cómicos, quase de certeza por acidente ("sou um átomo", "sou a História", "sou o blockchain").

Há momentos em que pergunta "porque é que tudo isto teve de ser um romance, em vez de uma colecção de ensaios ou discursos?" não parece inteiramente descabida, mas é uma pergunta que acaba por ser tão categoricamente redutora dos modos literários como a objecção de Ghosh. The Ministry for the Future é um livro com uma relação muito peculiar com as convenções dos géneros mais amplos a que pertence, e o leitor vai percebendo que aquilo que tenta ousadamente redefinir são conceitos tão centralmente ocultos na apreciação estética como "interessante" ou "aborrecido": quão desejáveis são essas propriedades numa história, e em que proporções. Avaliado por critérios razoáveis, é um livro aborrecido, mas trata-se de um aborrecimento distinto, em género e grau, do tipo específico de tédio provocado pela ficção medíocre ou até pela ficção inocuamente competente. O tédio aqui é praticamente um efeito colateral do condicionamento prévio, pois resulta da inversão deliberada de quase todas as expectativas legítimas sobre o tipo de história que conta.

Na não-ficção que se vai produzindo sobre o clima e o futuro da espécie, é comum ler-se a ideia de que precisamos de "melhores histórias", uma exigência em que as "histórias" são vistas essencialmente como um mecanismo de persuasão, algo que possa contribuir para melhorar a qualidade das opiniões colectivas e incentivar a consequente acção eficaz. Mas quando traduzidas para entretenimento, a maioria das histórias acaba por regredir às mesmas fórmulas: o aquecimento global reduzido a um contratempo que impede uma família de passar o feriado junta, ou a efeitos especiais que o protagonista pode derrotar correndo muito depressa.

The Ministry for the Future sabe que está a ser lido por pessoas que já foram expostas a várias versões dessa história, e o argumento temático embebido nas suas escolhas de organização é essencialmente sobre a necessidade de uma forma alternativa de a contar: uma prescrição de paciência para lidar com uma emergência. Muita da caracterização mais tradicional do livro (a caracterização psicológica reservada para os protagonistas) é dissipada em personagens passivas ou ineficazes. Muito do que propõem pode ou não funcionar. O desastre - aquele que chegaria depois dos vinte milhões de mortos - é evitado: não à última hora, graças aos actos heróicos de um número reduzido de músculos abdominais, mas sim graças a reuniões entre bancos centrais, empreitadas de engenharia, progressos acidentais, e outras acções colectivas tão arrastadas e penosas como processos geológicos. The Ministry for the Future foi o vigésimo romance de Kim Stanley Robinson. Nenhum deles foi adaptado ao cinema ou à televisão, e suspeita-se que o autor seria o primeiro a achar secretamente que o cinema e a televisão têm toda a razão.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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