A Guerra dos Mundos

Uma guerra que já não é o resultado da invasão dos marcianos, mas sim das falsas realidades que a nossa sociedade criou.

Há cerca de 50 anos Baudrillard referia-se já àquilo que designava por hiper-realidade como algo que estava a ocupar o lugar da realidade, mas tudo isso nos parecia ainda suficientemente distante e até muito teórico para nos preocupar. Até que, de repente, as consequências de uma pandemia de causas quase hiper-reais nos trouxeram a uma forçada e estranha realidade.

Vem isto a propósito do modo como decorreram estes estranhos Jogos Olímpicos, e talvez seja o momento para refletirmos um pouco sobre alguns aspetos não desportivos do que aconteceu.

Desde logo as provas cujos horários e locais não são, em muitos aspetos, os que permitem melhores condições para os atletas, mas sim os que poderão assegurar um melhor share televisivo pois é esse o único público que conta.

Esta é mais uma hiper-realidade a que valerá a pena estar atento quando do próximo campeonato do mundo de futebol.

Vejamos agora um pouco do que aconteceu com o estádio, palco central do espetáculo. Quando foi apresentada a candidatura, em 2013, um dos trunfos fortes de Tóquio era o facto de ter diversas instalações que poderiam ser reutilizadas dos jogos que ali tinham sido feitos em 1964. Propunha-se agora fazer a ampliação de uma dessas instalações com um projeto escolhido através de um concurso internacional.

Um projeto espetacular, mas que foi alvo de imensas críticas e acabou por ser abandonado quando, ao fim de dois anos, o seu custo já tinha derrapado para valores que a singularidade da proposta fazia desde início prever.

Quando o custo estimado já estava nos dois mil milhões de dólares, muito antes de se ter dado início a qualquer construção, o governo resolveu anular esta opção e, ainda em 2015, organizar um novo concurso. Foi o vencedor deste, o arquiteto Kengo Kuma, o autor do estádio que vimos nas cerimónias principais. Um edifício feito no mesmo terreno, situado no centro da cidade numa zona de jardins próxima do palácio imperial, mas agora concebido com preocupações ambientais nos materiais usados e na integração de amplas zonas verdes nos seus vários pisos.

Evitou-se a megalomania da proposta inicial que previa 80 mil lugares (que triste teria sido vê-los tão vazios), e entre outras originalidades propunha uma estrutura com mais de 70 metros de altura num sítio onde essa altura está regulamentarmente limitada aos 15 metros.

Pouparam-se muitos milhões e poluiu-se um pouco menos, mas é bom termos a noção de que, atualmente, um destes edifícios é uma nave de alta tecnologia, para permitir toda o tipo de sofisticados sistemas de segurança, filmagens e efeitos tecnológicos que nos deliciamos a ver.

A todas estas contradições, económicas e, neste caso, desportivas ao nível do mais elementar bom senso, que podemos sempre varrer para debaixo de um qualquer tapete, há que acrescentar os efeitos da brutal pegada ecológica que todos estes factos produzem.

Bem podem os organizadores publicitar os processos de reciclagem das camas ou das medalhas ou até os seus inovadores sistemas de transporte a hidrogénio, num esforço um pouco bizarro num dos países mais poluidores do ambiente. O problema começa muito antes, no modo como continuam a organizar-se eventos com estas dimensões e com toda a sofisticação dos novos equipamentos que a eles estão associados. É aí que está a origem das tremendas sobrecargas de CO2 produzidas num planeta já sem qualquer capacidade de as absorver.

Estima-se que só a construção das múltiplas infraestruturas necessárias tenha produzido mais CO2 do que um país como o Montenegro consome durante um ano, o que numa visão global para atingir as metas que nos dizem necessárias não é muito animador.

Uma consequência que não tem de nos impedir de realizar estes eventos mas que nos deveria fazer repensar o modo como continuam a ser feitos. Apenas isso.

Ex-presidente da Ordem dos Arquitetos

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