A geopolítica da vacina

O processo de vacinação em curso é o passaporte para o início da recuperação das economias, progressivamente aliviadas de confinamentos e socialmente normalizadas. Dizem os especialistas que ultrapassada a emergência pandémica e o período de vigilância sanitária, cuja mistura ainda nos angustia, passaremos a conviver com o vírus de forma endémica, habituada e sazonal.
A duração disto é uma incógnita, o que não desmerece os entretantos. E, nestes, há muito em jogo: a vacina transformou-se num instrumento de poder, influência, prestígio e posicionamento estratégico. Se quiserem, deu origem a autênticas superpotências da saúde pública, dando à diplomacia da vacina um cunho que pode ir da salvação gloriosa de terceiros à chantagem por vantagens políticas. Será assim a natureza humana: é na desgraça que se revela.

Na última reunião do G7 falou-se muito em falência moral no auxílio à vacinação dos países mais pobres, através da iniciativa multilateral Covax, mas os milhões anunciados de Washington a Bruxelas não preencheram apenas falhas coordenadas na consciência ocidental, responderam diretamente à competição entre quem chega primeiro a África, à América Latina ou ao Sudeste Asiático. O investimento anunciado tem um carácter geopolítico evidente e sinaliza três variáveis de uma suposta abordagem comum: reforçar os recursos e a capacidade de coordenação da Organização Mundial da Saúde; articular uma estratégia euro-atlântica alargada a Japão, Índia, Coreia do Sul e Austrália; e arrepiar caminho perante o avanço da China na diplomacia da vacina. O passo lógico seguinte será envolver o G20 já na cimeira de Roma sobre saúde global, marcada para maio, capaz assim de exponenciar o investimento num tão desejado "bem comum", embora refém dos gigantes da indústria farmacêutica, o que acaba por ser uma contradição nos termos e que está na base da absoluta disfuncionalidade entre expectativas criadas pelos governos, incapacidade produtiva da fileira industrial e descrédito da OMS como plataforma agregadora. Olhar o copo meio cheio, como gosto de fazer, leva-me a acreditar que esta trilogia pode ainda ser alinhável e corrigida, sobretudo porque o investimento feito na investigação e na produção da vacina, nomeadamente o que a União Europeia disponibilizou, legitima uma reivindicação justa pela partilha temporária da patente, para não mencionar o imperioso cumprimento dos contratos. Essa massificação produtiva, não necessariamente em solo europeu, é a chave para o desanuviamento acelerado das economias e para a normalização da vida pública. Por isso é que trazer a Índia a bordo é importante, quer do ponto de vista da capacidade agregadora quer dos equilíbrios à passada chinesa.

Tradicionalmente, mais de metade da produção de vacinas no mundo tem ali lugar e, no caso da covid, só o Serum Institute of India produz dois milhões e meio de doses por dia. É daqui que vêm as 600 mil doses da AstraZeneca que acabam de chegar ao Gana, o primeiro país a recebê-las através da Covax, ou as 200 mil destinadas a capacetes azuis da ONU, numa operação brilhante de soft power. Mas as ambições de Nova Deli não se ficam por aqui e têm na política de prioridade à vizinhança um claro foco estratégico. Por exemplo, no Nepal, onde está a aproveitar algum espaço dado por Pequim na atual crise política, acelerando a chegada da vacina ao regime de Katmandu. O mesmo acontece na Birmânia, no Sri Lanka, nas Maldivas e no Afeganistão. Já a China, através das várias vacinas produzidas e aprovadas internamente, já as colocou no Paquistão, no Camboja, na Serra Leoa, no Zimbabué, nos Emirados, no Chile, no México, na Turquia e no Brasil, tentando recuperar assim, no caso da relação com Islamabad, de um quadro de crescente desalinhamento provocado por projetos polémicos incluídos na Belt and Road Initiative. Desta forma, a vacina tanto pode servir para Pequim ganhar vantagem económica nalgumas relações bilaterais, como para melhorar a reputação junto de relevantes opiniões públicas, facilitando a pegada comercial e o volume de investimentos em grandes infraestruturas logísticas, como as que estão projetadas para o Paquistão.

A Rússia é outra potência muito ativa neste tabuleiro. As suas três vacinas chegaram atempadamente ao Egito, à Argélia, à Argentina, à Venezuela, à Bolívia, ao México ou ao Irão, intrometendo-se ainda na coordenação europeia através da Hungria. Dizem algumas sondagens que é elevado o sentimento russo antivacinação e que isso pode estar na base da internacionalização rápida imposta pelo Kremlin. É uma hipótese, mas que não deve criar ilusões: Moscovo também está com tudo na corrida para ver quem chega com a vacina primeiro. Sabe que isso significa espaço político conquistado nos países-alvo, além de criar relação com a sociedade ajudada e trazer de volta vantagens intemporais em regiões estratégicas como o Médio Oriente e a Europa. Veja-se ainda o comportamento de Israel, ou melhor, do primeiro-ministro Netanyahu em campanha para as legislativas de março, que defendia a exportação de vacinas para países que já tivessem reconhecido ou estivessem em vias de reconhecer Jerusalém como capital, ou privando de quantidades generosas as populações palestinianas, ou ainda usando a vacina para conseguir a libertação de cidadãos em território sírio. A diplomacia da vacina carrega consigo uma dose ideológica cavalar, não uma mera beneficência pela saúde de terceiros.

Se quisermos olhar para a competitividade destas dinâmicas com a benevolência dos ingénuos, apenas porque se trata de uma vacina, estamos a falhar no ângulo que prevalece para explicar a pressa em produzir, distribuir e marcar território.
E sendo este eminentemente geopolítico, é preciso saber interpretá-lo e agir em conformidade, alinhando decisões políticas, maximizando recursos e usando o poder agregado de forma rápida e eficaz. O pós-covid joga-se agora.

Investigador

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