A falta de norte na pandemia do sul

Na mesma altura que novos dados apontam para a entrada de vários países, incluindo Portugal, na 5ª vaga da pandemia, assim como para o surgimento de uma nova variante - Ómicron -, também surgiram novos dados que evidenciam o surgimento de uma nova vaga de desigualdades entre países. Recorde-se que os países em vias de desenvolvimento já tinham sido vítimas de uma injustiça relativa quando, no início de 2020, tiveram de enfrentar a pandemia em condições de enorme vulnerabilidade nos serviços de saúde - ao nível das unidades de cuidados intensivos, dos ventiladores, dos testes e dos tratamentos - e sem real possibilidade de adotar soluções de confinamento e de distanciamento social. Depois enfrentaram os efeitos desproporcionais da pandemia nos planos social e económico: mais de 100 milhões de pessoas foram atiradas para a situação de pobreza extrema e os fluxos externos privados de financiamento ao desenvolvimento caíram mais de 200 mil milhões de dólares. Paradoxalmente, os mesmos países ricos que foram capazes de, em poucos meses, mobilizar 16 biliões de dólares de pacotes de apoio aos cidadãos e empresas nacionais, não foram capazes de ir além de um aumento de 8000 milhões de dólares na ajuda pública aos países mais pobres, nem de avançar para programas de perdão de dívida.

A estas duas vagas de agravamento das desigualdades - na resposta à crise sanitária e na resposta às crises social e económica - sucedeu-se uma nova injustiça global associada à falta de equidade no acesso à vacinação. Apesar dos notáveis progressos científicos na descoberta das vacinas e na sua rápida produção, sucederam-se exemplos de nacionalismo e de falta de solidariedade internacional. Nem o objetivo, fixado pela COVAX, de fornecer 2000 milhões de doses aos 92 países mais pobres foi atingido, nem as metas de financiamento à iniciativa ACT-Accelerator foram alcançadas (a lacuna atinge 16 mil milhões de dólares). Por outro lado, os dados mais recentes confirmam que, ainda que a pandemia seja global, a forma como a abordamos é, absurdamente, dual e desigual - mais de 70% da população dos países mais ricos já se encontra vacinada com as duas doses, mas nos países de rendimento mais baixo essa percentagem não ultrapassa 3%. Entretanto, a narrativa sobre a falta de capacidade de produção de vacinas caiu por terra (no próximo mês excederemos as 12 mil milhões de doses, volume que é mais do que suficiente para vacinar toda a população mundial) e torna-se evidente que o problema reside na ineficiência (ou nacionalismo) na distribuição, o que acaba por originar a destruição (por ultrapassagem do prazo de validade) de milhões de doses de vacinas não utilizadas pelos países mais ricos e não doadas aos países mais pobres.

Como se esta sucessão de injustiças não fosse suficientemente impressiva, esta semana fomos confrontados com um novo episódio. As autoridades de saúde da África do Sul, competentemente, identificaram uma nova variante e, responsavelmente, partilharam a informação com os outros países. Estes, em vez de agradecer e aplicar medidas proporcionais (como a obrigação de testagem à partida e de quarentena à chegada) optaram por interditar os voos oriundos de vários países africanos.

Isto é, voltamos a falhar perante estes países: não os apoiámos suficientemente na vertente sanitária, não os apoiámos na redução do impacto das crises social e económica, não assegurámos o acesso equitativo à vacinação e, perante uma nova variante, erguemos muros, com evidentes prejuízos para as pessoas e para a economia. Esta abordagem, além de moralmente reprovável, é absolutamente irracional no plano sanitário e económico. O atraso na vacinação dos países pobres penalizará a economia global em mais de 9,2 biliões de dólares. Sendo que, muito do que será a futura relação entre os países, assim como os contornos da arquitetura global, dependerá do grau de solidariedade que estivermos disponíveis a assumir.

Diretor da Cooperação para o Desenvolvimento da OCDE

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