A Europa tem futuro?

Diz-se que é nos momentos mais difíceis que as pessoas se revelam. Julgo que será assim também com as instituições.

Há uma década, na crise financeira que alastrou à economia e à sociedade, as instituições europeias passaram de um comportamento errático para outro ainda pior, exigindo austeridade aos governos (que Passos Coelho abraçou com satisfação, indo "além da troika"), quando era necessário investimento público e apoio aos rendimentos. Entre as terríveis consequências, não nos esqueçamos de como isso contribuiu para o Brexit e para o crescimento dos populismos na Europa.

Chegámos à atual crise com pelo menos duas lições aprendidas. A primeira, trazida por Mario Draghi, de que é preciso defender o euro para proteger a economia europeia e a própria União Europeia (UE), e que temos instrumentos para isso, desde que estejamos dispostos a usá-los. A segunda, por António Costa (quem conheça o contexto europeu sabe que não é exagero), que demonstrou que melhorar os rendimentos das pessoas é essencial para recuperar de uma crise.

Estes ensinamentos permitiram uma revolução coperniciana na forma como a UE lidou com a crise covid, para o que soube encontrar os mecanismos necessários para superar as suas limitações institucionais. Apesar de a dimensão da crise requerer o reforço e aceleramento da resposta europeia, a verdade é que foi possível encontrar soluções para problemas que há um ano pareciam insolúveis, como a emissão de dívida comum europeia para financiar a recuperação.

É, portanto, com mais otimismo que se olha hoje para a Europa, e é nesse espírito que se iniciará a Conferência sobre o Futuro da Europa, que o governo português conseguiu desbloquear depois de um impasse institucional que atrasou um ano o seu arranque.

Com esta iniciativa, a UE pretende auscultar os cidadãos acerca dos rumos que a União deve tomar, num processo que se pretende aberto e participado. Tomara que o seja realmente. Cair no velho hábito de ouvir os cidadãos para depois lhes apresentar as soluções que já se tinha desde o início apenas desacreditaria a UE e as instituições, afastando mais as pessoas do projeto europeu. E os populistas estarão à espreita.

A tecnologia, incluindo as redes sociais, permite hoje realizar verdadeiros processos participativos, superando as dificuldades da distância e do número de pessoas que podem contribuir. E é realmente importante que se consiga uma participação alargada, para que as prioridades dos cidadãos sejam mais integradas na agenda política europeia.

Na "bolha" de Bruxelas percebe-se que muitos gostariam que da auscultação resultassem pistas para avançar na reforma institucional da União. Apesar das importantes limitações institucionais que existem, julgo que conduzir o debate para esses temas serve apenas para responder às questões dos atores políticos, mas não dos cidadãos. Só com políticas concretas, nas áreas que venham a resultar da auscultação, se poderá dar resposta às aspirações das pessoas. Só assim poderemos prosseguir o projeto europeu. Só assim a Europa terá futuro.


Atletismo português

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Patrícia Mamona, Auriol Dongmo e Pablo Pichardo. Fixem estes nomes. São campeões da Europa em três disciplinas técnicas de atletismo. São a prova de um Portugal cada vez mais multicultural. Apetece-me dizer, "isto somos nós".


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