A Europa no divã

Os chefes da União deixaram o Porto com um aceno: até ao final da década, garantir emprego a 78% dos europeus em idade ativa e tirar da pobreza pelo menos 15 dos atuais 90 milhões que sobrevivem nos mínimos. Anotamos o compromisso, mesmo sabendo como é comprida e tortuosa a estrada que vai desde a intenção até à execução.

Na Cimeira do Porto nasceu também a ideia de lançar uma Conferência sobre o Futuro da Europa que dê voz aos cidadãos, um projeto que se prolongará até à primavera do próximo ano. E se é para dar voz aos cidadãos, é connosco, cada um de nós, já não era sem tempo.

A vida, a história, ensinam-nos que a identidade de interesses é o mais seguro dos vínculos, seja entre Estados seja entre pessoas.
O caminho da construção europeia não pode ser outro. Mas não pode haver "identidade de interesses" se ignorarmos aqueles 90 milhões de europeus pobres que coabitam a nossa soleira da porta.

Por volta de 1900, toda a elite europeia lia os mesmos livros, tocava as mesmas peças musicais, pendurava nas suas casas as reproduções dos mesmos quadros e exultava com as mesmas óperas. Ao longo do século XIX, a ferrovia diluíra fronteiras e encurtara tempos, trazendo artistas de todos os tipos para os eleitos públicos de todo o continente. E as leis do mercado, as máquinas de impressão tornaram as edições mais baratas, encorajaram traduções, inventaram direitos de autor, alimentaram o fenómeno dos fãs, popularizaram novos formatos de arte, música e literatura para preencher os corredores de uma nova classe média ávida de estatuto.

O comboio e o capitalismo foram os pilares de uma identidade cultural europeia que se universalizou, à medida de cada geografia. A Europa das elites tornou-se cosmopolita, mas entre a abertura de espírito e a incapacidade de responder ao agravamento das desigualdades floresceu a reação nacionalista. Foram necessárias muitas décadas e duas guerras devastadoras para recuperar um pouco desse espírito e restaurar algum cimento de uma identidade europeia que agora transcende o cultural. Muito mais do que as elites, que a moeda única ou que a livre circulação de pessoas e de bens, só há futuro para a União Europeia se ela for dos cidadãos.

Existe realmente uma identidade europeia, hoje? O que querem, como se sentem e a que aspiram os europeus? Para responder a estas e outras questões, para tentar travar o descontentamento e o fosso entre instituições e populações, a Comissão Europeia lançou a ideia de uma Conferência sobre o Futuro da Europa que promete dar voz aos povos do continente. Não foi fácil chegar aqui: para além da pandemia, o desenho desta iniciativa tem sido entravado por discussões sobre liderança, distribuição de poder e estrutura burocrática - um mau começo para quem promete envolver e ouvir pessoas comuns.

Querem uma modesta opinião? Cumpram de uma vez a promessa de duplicar, já e até final da década, a verba do orçamento destinada ao Erasmus. Por via deste programa de apoio e estímulo à mobilidade académica entre estados membros, mais de 10 milhões de jovens europeus, entre os quais 215 mil portugueses, estudaram noutro país da União, nos últimos 30 anos - gerando um impacto que está sobretudo na criação de uma consciência coletiva, de um sentido de pertença comum, na afirmação de uma cidadania europeia. A promessa por cumprir acenava com um orçamento de €30 mil milhões/ano, ainda assim abaixo dos atuais 45 mil milhões destinados à famigerada Política Agrícola Comum, que tão maus resultados produziu em Portugal. Menosprezar o maior investimento que a Europa pode fazer em si própria e no futuro seria passar ao lado do verdadeiro euromilhões.

Jornalista

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