A Europa e a turbulência que aí vem

O lançamento da Conferência sobre o Futuro da Europa decorreu nesta semana em Estrasburgo, na sede oficial do Parlamento Europeu. O simbolismo de Estrasburgo é enorme. Representa a reconciliação, a paz, a democracia e a solidariedade entre os europeus. Esses quatro desideratos continuam a ser tão pertinentes hoje como o têm sido ao longo das sete décadas que já conta a construção do edifício político europeu. É desde logo importante que nos lembremos disso, para reconhecer donde viemos e definir para onde queremos ir no próximo decénio.

É esse o objetivo desta iniciativa, que deverá ficar concluída em março de 2022. Seria um erro fazer uma apreciação cínica sobre a conferência. Por muito subtil que possa parecer, o cinismo é a faca na liga dos amargurados e dos bota-abaixo. O que se pede é uma reflexão cidadã, que combine realismo com idealismo, ou seja, uma visão crítica, mas construtiva. Trata-se de ir além da retórica ou das elucubrações do costume. A conferência é um repto diferente, que permitirá medir a força dos movimentos de cidadania. Aliás, o maior desafio que a UE enfrenta é exatamente o que decorre do fosso de desconhecimento ou de indiferença entre, de um lado, a política e as instituições europeias e, do outro, a vida quotidiana das pessoas. Mesmo em Bruxelas, quem vive uns quarteirões para lá do distrito europeu parece estar tão desligado da UE como uma qualquer família que viva numa pequena aldeia de Portugal. Ora, um projeto político que não seja entendido pelo comum dos mortais é frágil. Pode ser facilmente posto em causa pelos seus inimigos.

Os nove eixos de reflexão sobre o futuro ignoram esta desconexão. Os temas são importantes: as alterações climáticas e o ambiente; a saúde; a economia, emprego e justiça social; o papel da UE no mundo; os direitos e a segurança; a transformação digital; a democracia; as migrações; e a área da educação, da cultura, do desporto e da juventude. Mas é um erro dar o apoio dos cidadãos ao projeto europeu como adquirido. Esta é uma questão fundamental. Após um ano absolutamente excecional, encontramos nas sociedades europeias muita frustração, confusão, impaciência e um individualismo mais acentuado. Temos também um conjunto de inimigos internos e externos prontos para explorar as vulnerabilidades e acabar com a UE. Daí a discussão sobre o caminho para 2030 dever começar pela análise das fragilidades e das ameaças.

Uma avaliação prospetiva dos próximos anos mostra-nos que iremos sofrer o impacto de três grandes ondas de choque. A primeira decorre da aceleração do uso da cibernética, em particular da inteligência artificial, que irá transformar muitos europeus em analfabetos digitais e em mão-de-obra redundante. Se não for tratada devidamente, agravará ainda mais as desigualdades sociais.

A segunda resultará de novas vagas de imigração descontrolada e do aproveitamento que certas forças farão desse fenómeno. Não serão apenas Viktor Orbán ou Jarosław Kaczyński, ou mesmo Sebastian Kurz, a dividir a Europa nessa matéria. As hipóteses de Marine Le Pen conquistar o poder em 2022 ou de a Itália ser governada por uma coligação de ultranacionalistas em 2023 - numa aliança de Matteo Salvini com a dirigente neofascista Georgia Meloni, cujo partido Fratelli d"Italia já mobiliza 18% do eleitorado nacional - têm de ser equacionadas. Uma frente que reúna esse tipo de políticos em vários Estados membros causaria uma fratura potencialmente fatal para a continuação da Europa.

O terceiro choque estratégico - algo a evitar a todo o custo - poderá vir de um possível conflito armado entre os Estados Unidos e a China. Uma confrontação dessas, que não pode de maneira alguma ser excluída dos cenários prospetivos, teria um efeito devastador. A estabilidade e a prosperidade europeias iriam por água abaixo.

A mensagem, agora que o debate foi aberto, é que não pode haver assuntos tabus nem cenários incompletos, que não tenham em conta a complexidade interna e externa em que nos iremos mover. Desde já, um facto é certo. Vêm aí anos de grandes convulsões.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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