A espada de Jerusalém

Quando o Hamas decidiu, tal como a imprensa sublinha, "ser com dureza e ser o primeiro a desencadear o conflito, foi decidido provavelmente a conseguir pelas armas o que, longos anos passados, não conseguiu pela legitimidade das urnas. No que respeita à capacidade e legitimidade da ONU, o que imediatamente retoma atualidade são as palavras, justas, oportunas, responsáveis, do Secretário-Geral António Guterres, consciente da crise que a ordem internacional revela, perdendo a capacidade de impor a regular intervenção do Conselho de Segurança, e sofrendo a crescente anulação dos princípios do "mundo único", e da terra "casa comum dos homens".

Existe mais de um conceito que tenta despertar o que chama "consciência e liberdade", como é o caso da Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa, com sede na Suíça, onde, no Palácio da ONU, a que está ligada, e que não omite publicar o texto de 2020 - "Consciência e Liberdade", publicado em português, para "alargar e combater o descaso do ódio", a iniciar com a recordação das palavras do Secretário-Geral, quando celebravam o 70.º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, assumindo o estatuto de Associação, que inclui ligação consultiva nas Nações Unidas em Genebra, Nova York e Viena, no Parlamento Europeu em Estrasburgo e Bruxelas, no Conselho da Europa em Estrasburgo, e na Organização para a segurança e cooperação na Europa.

As palavras, ao mesmo tempo atribuídas a António Guterres e Adame Dienz são estas: "as relações de poder são menos claras, os valores universais estão a ser corroídos, e os princípios democráticos estão sitiados", e ainda "o interesse próprio e a violência colocaram em risco a sobrevivência das futuras gerações, como também em algumas regiões da nossa própria geração". Acontece que ao interesse israelita não faltaram dificuldades para conseguir o Estado próprio, mas a relação com os islâmicos também não foi sempre condicionada pelos valores da ONU. E não apenas da ONU, e da UNESCO sua cooperadora: foi sobretudo notável o convite e atenção às intervenções na ONU dos Papas sucessivos do catolicismo desde a paz da guerra de 1939-1945, tendo sido particularmente importantes as intervenções do Papa Francisco que foram buscar ao fim do mundo, e cujas palavras no Iraque e nas missas da Semana Santa, movimentaram a responsabilidade dos vivos, aos quais cabe a difícil responsabilidade de encontrar a sabedoria que vamos legar á vida da próxima geração, que não viveremos.

Da minha geração, a memória é sempre reservada à intervenção de João Paulo II, cuja Pátria de origem foi submetida aos maiores sacrifícios. Foi em outubro de 1986 que João Paulo II realizou em Assis "o encontro destinado a conseguir um consenso mundial das religiões, a favor da paz, propondo um acesso mundial ao transcendente. A Mensagem de Assis foi destinada a dinamizar as conclusões que excluem o regresso à guerra. Os líderes espirituais das grandes confissões religiosas convergiram na súplica de que todos os povos implorem a proteção divina para conseguirem entrar em paz no século XXI. Recordo ainda uma das reuniões onde Mário Soares, em Assis, proferiu uma Conferência importante de apoio nessa data, tendo presente os sacrifícios que levam hoje o Hamas a tentar impor uma nova religião pela força a Israel: não ficou livre de resposta violenta, esta também orientada, segundo comentários, por interesses políticos do Primeiro-Ministro de Israel.

Mas "A Espada de Jerusalém", invocada pelo apoio no sofrimento passado, agrava a queixa sobre a falta da Justiça Natural que foi entregue à ONU pelos fundadores. Político, hoje afastado nos EUA, agravou a situação de Jerusalém. O poeta Omar Salah, de 19 anos, invocou a sua condição de "geração futura", lembrando o nome do seu grupo: "nós não somos números". Mas os resultados da intervenção da Espada de Jerusalém não é previsível que leve os intervenientes a um dos acordos, que imponham a paz, a qual infelizmente não respeita necessariamente a Justiça Natural, e todos passam a ser "números". Números dos combatentes de ambos os lados, fazendo crescer o combatido "ódio entre os adversários", e incapacidade dos órgãos internacionais e dos Estados que intervieram juntos pedindo paz. A Espada de Jerusalém não faz crescer apenas, de ambos os lados, os que são "números", e a Ordem de Assis ficou tão frágil como a ordem jurídica internacional.

O século continua sem bússola, a liberdade da religião praticada sem confrontações, a ordem jurídica internacional sem obediência geral e cooperação. Como se todas as vítimas fossem apenas "números", a intervenção humana do Presidente Biden para conseguir uma adesão ao cessar-fogo, foi desconsiderada pela resposta do Primeiro-Ministro israelita que continuaria com a intervenção militar; mas a justiça natural não poderá continuar repudiada.

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