A direita que Abril abriu

Não se pode contar uma revolução, como não se pode contar um amor. Um dia os historiadores virão e nós não nos reconheceremos nas palavras que de nós citarem e venham aparecer assim, desgarradas de nós, no seu texto narrativo histórico. Éramos mesmo nós? Dissemos aquelas palavras? Eram bem aquelas as nossas intenções e aqueles os nossos sonhos?

E depois virão os cientistas políticos, que examinarão o regime que naquele ano derrubámos com alegria. Não, não era fascista, era apenas um pouco autoritário, ninguém sofria muito. Não, Salazar não perseguiu ninguém, Peniche era um estabelecimento prisional onde cumpriam pena os réus condenados por um tribunal plenário judicialmente independente e o Tarrafal era apenas uma colónia de recuperação e reeducação de marginais. O fascismo nunca existiu e aguardamos até a chegada do politólogo italiano que nos demonstre finalmente que Mussolini nunca foi fascista.

Interrompo aqui este tom, porque a ironia hoje não é compreendida e certamente os mesmos que descobriram o racismo de Eça nas palavras do personagem João da Ega me irão atribuir, ao ler as linhas que ficaram atrás, uma defesa acendrada do Estado Novo.

Há uma conquista de Abril de que pouca gente fala, mas que nos dias de hoje ganha um valor que a própria direita tem de aprender a estimar. Foi a criação de uma direita democrática.

Recordo um jantar em Madrid, 1979 ou 1980, em que, face à minha desilusão com os meus companheiros de mesa Victor Cunha Rego e Vasco Pulido Valente, que estavam alegremente a trair Mário Soares (de quem Cunha Rego fora chefe de gabinete) para consolidar a ajuda espanhola à formação da AD, o Vasco se virou para mim, com simpatia (foi antes da morte de Sá Carneiro, quando ele ainda vivia com ideal e esperança e tratava bem os outros seres humanos) e me disse: "Não faças essa cara, estamos a fazer nascer em Portugal uma coisa que é muito necessária, uma direita democrática."

Hoje penso que ele tinha razão. Uma direita democrática era o garante da alternância e um socialista democrático, porque é democrata, tem de aceitar o princípio da alternância.

Resgatar a direita de uma ideologia nacional-corporativa, em que, com exceção do professor Martinez, ninguém já acreditava, foi obra de Sá Carneiro, Amaro da Costa e Freitas do Amaral, como salvar a cultura de direita da poesia do padre Moreira das Neves foi obra da conjugação da abertura da Igreja operada pelos católicos progressistas com a geração de O Independente, que nos trouxe desenvoltura, insuportável arrogância e ligeireza, boa poesia inglesa e as ideias ultraliberais da senhora Thatcher.

A direita democrática que devemos ao 25 de Abril está hoje ameaçada. Nas palavras de Maria de Fátima Bonifácio, graças a André Ventura a direita perdeu a timidez e os paninhos quentes com que vivia desde 1974 e finalmente atingiu o patamar em que poderá fazer a conciliação do confinamento dos ciganos com Burke e da castração química com Tocqueville.

O PSD, onde agora germinam Venturas por todo o lado, de Loures à Amadora, não seria hoje reconhecido por aqueles meus companheiros de mesa de 40 anos atrás. Por isso, e porque cada vez é mais claro que nos faz falta uma direita democrática, cuja alma alguns estão prontos a vender ao primeiro diabo que surja, julgo ter sido um erro político que a Iniciativa Liberal tenha sido afastada da manifestação do 25 de Abril.

Não tenho a menor afinidade e simpatia por quem defende que "não há tal coisa como uma sociedade" (Thatcher) ou que "a única obrigação social de uma empresa é dar lucro aos seus acionistas" (Friedman). E não esqueço quem nos insultava com o seu desprezo, defendia o nosso empobrecimento e nos chamava "piegas". Mas a democracia é e tem de ser de todos os que seriamente acreditam nela e não a querem trocar por mais uns votos vindos diretamente das sarjetas das redes sociais. Queremos que a nossa atual direita não dê cabo da direita democrática construída a partir de Abril. A direita que Abril abriu.

Diplomata e escritor

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