A cruzada verde

Os espelhos de água de uma dúzia de albufeiras nacionais, a montante de barragens que já produzem energia hidroelétrica, vão acolher também centrais de energia solar. É esse o plano do governo, que deverá lançar em setembro o novo leilão. Sete dessas albufeiras já estão selecionadas - Vilarinho das Furnas, Alto Rabagão, Paradela e Salamonde, a norte; e Alqueva, Monte da Rocha e Santa Clara, a sul - mas há outras em avaliação.

A intenção do Ministério do Ambiente e da Ação Climática é acertar o passo com a ambição europeia de obter entre 38% e 40% da sua energia a partir de fontes renováveis, até 2030, e desta vez com "a vantagem de as centrais solares não ocuparem o solo, porque vão ser na água", e de já assegurarem ligações à rede.

O nosso mundo iniciou um caminho sem retorno, de perigosos impactos ambientais. O aumento da temperatura média global e a maior frequência de eventos climáticos extremos pressionam a procura de respostas para conter as mudanças meteorológicas. Dezenas de governos fazem contas para atingir no médio prazo objetivos de emissões zero de gases com efeito estufa, e a grande maioria dos países - incluindo agora os Estados Unidos - fazem parte do Acordo de Paris, cujo objetivo é limitar o aumento da temperatura global neste século para menos de dois graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais.

Esta corrida contra o tempo vai implicar uma nova redistribuição de riqueza e de poder entre países e regiões. A história e a evolução dos países ricos em hidrocarbonetos (petróleo, gás natural e carvão) ensinam que o controlo da energia foi sempre foi um instrumento de influência e de poder na política externa, e demasiadas vezes gatilho de conflitos. Acontece que o sol e o vento, geradores de energias limpas, são universais, pelo que um maior aproveitamento do seu potencial provocará certamente alterações profundas no tabuleiro geopolítico. Por isso, liderar a cruzada verde é um objetivo prioritário das grandes potências - e, com a vossa licença, também das pequenas: em Portugal, sol e vento são recursos muito mais abundantes do que a visão estratégica de sucessivos governos que adiaram a aposta nas energias renováveis, lançada no início deste século.

À nossa volta, as duas maiores potências mundiais ainda estão entre os países mais dependentes de combustíveis fósseis. Do lado americano desperdiçaram-se quatro anos preciosos com o negacionismo do governo de Trump, perdendo terreno para a China, de longe o maior investidor em energias limpas. Em jogo está a independência energética, a geração de muitos empregos e o controlo de tecnologias de valor global. Por isso, a Europa, que perdeu para aqueles a corrida no digital, não pode ficar para trás. E pode, e deve, liderar a transição energética - uma ambição de enorme importância estratégica para a União, já competitiva no verde: oito das dez maiores empresas de tecnologia limpa são europeias.

Há sinais promissores: quase um terço dos 750 mil milhões de euros que movimentarão os fundos europeus da próxima geração serão atribuídos a projetos climáticos - um bom ponto de partida. Mas serão necessárias mais etapas para garantir o sucesso, só possível se cada Estado membro cumprir as suas metas nesta cruzada verde - porque se trata, agora, de assegurar a sobrevivência dos nossos filhos e netos. Até lá, não deixa de ser triste que a natureza fale e teimemos em não a ouvir.

Jornalista

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